Sarah
é a menina mais chata do mundo. Antes de
conhece-la eu era um cara assim, digamos,
meio blasé. É, tipo, eu ficava
analisando as coisas sob pontos de vista não
muito convincentes a mim mesmo. Eu lia um
livro sem nem o saber o título, o autor, a
editora. Eu via um filme de terror e achava
que era a melhor comédia do mundo. Por mais
que minhas preferências fossem incomuns
para a maioria das pessoas da faculdade, eu
não me sentia muito diferente dos outros. Não
me sentia mesmo. Até conhecer a Sarah.
Era um dia mais ou menos assim: Eu acordei
com o mau humor habitual, arrumei-me em
questão de dois minutos e meio, coloquei a
meia ao avesso, vesti uma camisa amarela com
uma baita elipse preta no centro da camisa e
um boné vermelho virado para trás. Eu mais
parecia um daqueles bonecos gigantes que são
desfigurados a base de pauladas no carnaval.
O carnaval é cool, e eu odiava o
modo que estava vestido. Só que eu não
sabia. E logo a menina mais cool desse mundo
foi alertar-me para o modo sofrivelmente
bizarro na qual eu me vestia:
Sarah: Que roupa fera! Qual é a sua
nacionalidade?
Eu: A mesma que a sua.
Sarah: Bah, pensei que fosse um
turista australiano ou neozelandês. O povo
dessa cidade não costuma a se vestir de
forma tão estranha.
Eu: Eu pensei que você tivesse
gostado.
Sarah: Não que eu não tenha
gostado. Eu geralmente costumo gostar de
tudo o que é diferente.
Eu: Mas eu não sou diferente.
Sarah: Ah, como não?
Eu: É que essa foi a primeira roupa
que me apareceu.
Sarah: Ah sim, você é daqueles que
acordam tarde, colocam a meia ao avesso,
capricham no nível de estranheza da roupa e
saem por aí achando que são normais.
Eu: Como você sabe?
Sarah: Eu não sei. Eu presumi. Acho
que já passei por essa situação.
Sarah vestia uma longa saia xadrez e uma
camisa branca com bolinhas pretas. Usava um
tênis meio sujo, com cores que combinavam
com sua roupa. Ela realmente se vestia bem.
Seus cabelos eram rubros, curtos e que caíam
sobre o rosto.
Eu: Bom, eu tenho que ir pra aula. Até
a próxima.
Sarah: Tchau, menino estranho.
E assim me dirigi até a sala de aula. A
faculdade era de uma extensão espantosa,
localizada em um complexo de mais ou menos
seis prédios. Eu estudava no terceiro prédio.
Cursava psicologia e estava no terceiro período.
Embora estivesse convicto de minha vocação,
estava inseguro quanto a meu futuro. Não
tinha muitos planos em mente. Meus pais
tinham uma ótima condição financeira e não
hesitariam em me sustentar até o momento em
que tivesse absoluta certeza do rumo que
tomaria na vida. Mas isso não era certo.
Por mais insegurança que tivesse naquele
momento, era a hora de aprender a buscar
meus objetivos sozinho, a ter minhas próprias
responsabilidades.
Voltei a encontrar Sarah no Leroy's, uma das
housemusics mais freqüentadas
daquela cidadezinha. Ela estava com outras
duas garotas, pareciam amigas inseparáveis.
Dessa vez se vestia com um vestido preto e
branco, todo trançado, e com uma bota que
ia até o joelho. O cabelo estava diferente,
um pouco mais bagunçado. Aproximei-me:
Eu: Olá, menina estranha.
Sarah: Olha só quem está por aqui.
Nunca poderia imaginar que logo você freqüentaria
este lugar.
Eu: Por que? Qual tipo de lugares eu
pareço freqüentar?
Sarah: Vejamos... lanhouses,
talvez.
Eu: Não, eu não sou nerd.
Sarah: Nerds são legais. Oitenta e
quatro por cento dos meus amigos são nerds.
Eu: Alguns o são. Mas eu não
trocaria a minha vida pela vida de um nerd.
Que grande asneira eu havia falado. Que vida
eu tinha? A própria representação da
monotonia e da mediocridade. Acredito que
ela não tenha reparado, mas a sua expressão
não foi das melhores.
Sarah: Quer um drink?
Eu: Só bebo cerveja.
Sarah: Cerveja fede a esterco.
Eu: Drinks fedem a papel-moeda.
Nesse momento ela deu uma gargalhada, como
quem realmente havia achado graça naquele
meu comentário estúpido.
Sarah: Que fera. Você vem aqui
sozinho?
Eu: Não tenho amigos nessa joça.
Sarah: Caracoles, você não
tem nenhum amigo nessa cidade? Ninguém,
realmente ninguém?
Eu: Eu falo com algumas pessoas,
assim como estou falando com você. Amizade
mesmo eu acho que não tenho.
Sarah: Seu anti-social! Vai ver você
não consegue ter amigos pelo modo
incrivelmente esquisito que se veste.
Eu: Seriam as pessoas tão
esteticistas assim?
Sarah: Claro! Uma imagem vale mais do
que mil palavras.
Eu: Aposto que você faz moda.
Sarah: Não é muito difícil de
concluir isso, né?
Eu: Realmente.
Sarah: Infelizmente a imagem no mundo
atual não é nada misericordiosa com
estranhos como você. Vista-se como eles
querem ou eles não te quererão por perto.
Eu: Excelente este raciocínio.
Sarah: Já vi que você é um
daqueles meninos que pouco se importa com a
opinião das outras pessoas.
Eu: Ora, ora, que belo senso de
observação tem você.
Sarah: E é irônico também.
Eu: Não. Sou corintiano.
Eu estava com o humor em estado de graça
naquele dia. A verdade é que eu só estava
sendo tão falsamente grosso e estúpido com
Sarah porque ainda não tinha descoberto
quem era ela.
Sarah: Eu também.
Eu: Ta falando sério?
Sarah: Estou.
Eu: Legal. Pelo menos temos algo em
comum.
Sarah: Vem cá, você costuma a ser
simpático assim com todo mundo?
Eu: Na maior parte das vezes.
Sarah: Isso faz de você um cara não
tão esquisito como eu pensava.
Eu: Eu devo considerar isso uma coisa
boa?
Sarah: Você é quem deve saber.
Eu: Ok. Mas eu não sei.
Sarah: Vou ao banheiro. Aproveite pra
pensar.
E ela foi. A primeira impressão que eu tive
dela não foi das melhores. Parecia uma espécie
de simpatia forçada. Senti-me como um
animal a ser adestrado. E eu não sei por
qual razão, mas não foi tão ruim. Pensava
eu: "Alguém está perdendo tempo
comigo...!" E comecei a rir depois
disso. Nesse momento, então, ela voltou.
Sarah: Está rindo do que?
Eu: Nada.
Sarah: Ah, me conta!
Eu: Você não é nada curiosa, hein.
(ainda rindo)
Sarah: É que eu odeio quando as
pessoas são egoístas o suficiente para não
dividir algo que as leva a rir tão
naturalmente assim. (imitou-me rindo)
Eu: Depois eu é que sou irônico.
Minha última frase foi meio definitiva, do
tipo 'não te interessaria em nada'. Os
olhares dela não pareciam satisfeitos.
Minha aparência passável e ajaezada
deveria estar causando um tédio irreversível
naquele diálogo. Creio que ela se sentia
também estranha, esquisita, quando
conversava comigo. Mas logo percebi que
estava enganado.
Eu: Desculpe, não quis ser grosso.
Sarah: Mas ora, você me pedindo
desculpas? Pensei que fosse mais orgulhoso.
Eu: Falei da boca pra fora.
Sarah: Sei (rindo).
Eu: Mas eu não quis mesmo. Eu sempre
estrago as conversas com o meu modo pouco
atencioso de tratar as pessoas.
Sarah: Ainda bem. O mundo precisa de
mais pessoas assim.
Eu: Eu tenho leve impressão de que
você está me fazendo de idiota.
Sarah: Negativo, você é quem se faz
de idiota pra que os outros não cheguem
perto de você.
Eu: É, pode ser.
Sarah: Bela tática argumentativa.
Eu: Não é tática.
Sarah: Ah, claro, obviamente.
Sabe quando o diálogo chega a um ponto que
você tem vontade de mandar a outra pessoa
se fuder, virar as costas e sair andando? Eu
me sentia assim nesse momento. Eu realmente
estava insatisfeito ali. Eu geralmente só
freqüentava aquele lugar pra tomar umas
cervejas, escutar músicas e ler as fanzines
legais que eles tinham.
Sarah: Você esta com cara de tonga.
Eu: Eu? (rindo) Você quer mesmo
conhecer o nível de importância que eu dou
a isso?
Sarah: Vamos lá, diga-me.
Eu: Imagine um número equivalente ao
meu ânimo de estar aqui, numa noite idiota,
em um lugar idiota, falando de coisas
idiotas.
Sarah: Conversando com uma pessoa
idiota?
Eu: Não, você não é idiota.
Sarah: Pena. Já estava contente ao
saber que você me achava idiota.
Eu: E por qual razão?
Sarah: Porque se trata da verdade.
Eu: (rindo) O que leva te pensar
isso?
Sarah: Não te interessaria em nada.
Eu: Olha só, revidando.
Sarah: Não é revide.
Eu: Sei, é tática argumentativa.
Sarah: Quer dançar?
Sarah e seus escapismos. Era evidente
naquela moça a extrema capacidade de
transformar algo tedioso em interessante.
Seu modo diferente de agir e pensar lhe
transformava numa pessoa trezentas vezes
mais interessante que a sua natureza lhe
conferia. E eu, claro, fiquei espantado com
isso.
Eu: (rindo discretamente) Mas eu não
sei dançar.
Sarah: Eu não perguntei se você
sabe. Perguntei se você quer.
Eu: Ta certo, mas não vale reclamar
depois.
Sarah: Ok.
Então eu arrisquei passos tímidos,
enquanto Sarah se remexia para todas as direções
em espaços mínimos de milésimos de
segundo. A música trazia em si algo de
psicodélico, era doidivano, batia forte,
acelerado, e as pessoas acompanhavam com
movimentos desordenados. Eu me senti como em
um videogame.
Sarah: Esta gostando?
Eu: Fala mais alto! Não estou
escutando nada com essa música.
Sarah: ESTÁ GOSTANDO!?!?
Eu: Ahn!? Que!?
Sarah: E-S-T-Á G-O-S-T-A-N-D-O,
CACETE!?
Eu: Aaaah, tá! Não muito. Vou
lembrar de trazer o meu joystick da
próxima vez.
Sarah: (com uma cara extremamente
charmosa de decepcionada) Chato.
Eu: Liga não.
Sarah: Vamos lá fora...! É o meu
lugar preferido aqui do Leroy's.
Era uma sacada com uma ótima vista da
principal praça da cidadezinha. Ali, ficava
uma imensa Igreja fechada há uns duzentos
anos, uma banca de jornal, uma padaria, uma
quitanda e um minúsculo posto policial
(onde mal cabia o policial, que era tão
gordo quanto um elefante hipocondríaco).
Como já se aproximavam das três horas da
manhã, não havia ninguém na praça. Até
que Sarah me chamou a atenção para um
detalhe.
Sarah: Ta vendo aquele cara ali?
Eu: Onde?
Sarah: Ali, porra, deitado no banco.
Eu: Não vejo.
Sarah: Com mil demônios, naquele
banco de merda há um ângulo de quarenta e
cinco graus da cabine policial.
Eu: Falando com essa meiguice, é óbvio
que eu acho.
Sarah: Puxa, finalmente.
Eu: Sim, mas... Quem é aquele indivíduo?
Sarah: É o Zé.
Eu: Zé?
Sarah: É. O Zé.
Eu: Zé, Zé, realmente o Zé?
Sarah: É, o Zé Brizola.
Eu: Quem é esse merda desse Zé
Brizola?
Sarah: O Zé, Brizola.
Eu: Quem?
Sarah: O Zé Brizola, seu pai é um
boiola.
Eu: Puts. Você não sabe o quanto eu
estou rindo por dentro. Por fora eu não
estou demonstrando, mas por dentro eu to me
cagando de rir. To quase tendo uma diarréia.
Sarah: (rindo descontroladamente) Mas
sério... (não consegue falar uma vez que
acionada uma das suas crises de riso)
Eu: Fale...
Sarah: (rindo descontroladamente)
Eu: Fala, cacete!
Sarah: Ta. Ele é o ex-prefeito da
cidade.
Eu: Encontra-se em ótimo estado de
conservação para um ex-prefeito.
Sarah: Pois é. De tanto ele beber,
acabou sofrendo o impeachment, perdeu
tudo que tinha, vendeu sua cueca pra comprar
caninha da roça e hoje só tem essa praça
como moradia.
Eu: Mas que loser.
Sarah: Todos nós estamos arriscados
a isso.
Eu: Nem todos.
Sarah: Ah é? E o que te faz
diferente?
Eu: O modo na qual eu me visto.
Sarah: Você deveria ser menos
contemporizador.
Eu: E a senhorita deveria usar o seu
tempo com coisas mais úteis do que ficar
bancando a old girl.
Sarah: (rindo) Essa não foi a intenção.
Eu: Mas conseguiu ser.
Sarah: Ta certo então, de que forma
posso me desculpar?
Eu: Quer mesmo saber?
Sarah: (rindo sem graça) Mas é óbvio
que sim.
Eu: Mas eu não quero falar. Deixa
pra lá.
Sarah: Ah, não! Agora você vai ter
que dizer.
Eu acho muito provável que Sarah tenha
percebido naquele momento que eu era tímido
e orgulhoso o suficiente para dizer: 'eu
te achei interessante o suficiente para te
classificar como uma namorada em potencial'.
E ela, com a sempre eficaz capacidade de
gerar escapismos pras horas mais estapafúrdias
do mundo, não hesitou em voltar ao foco do
assunto, só que do seu modo, sempre se
sobrepondo à situação.
Sarah: Vai falar não?
Eu: Olha lá, o Zé Brizola caiu do
banco.
Sarah: Foda-se o Zé Brizola.
Eu: Obrigado pela simpatia, volte
sempre.
Sarah: (rindo) Para de fazer doce,
vai.
Eu: Não se trata disso. Eu só acho
diferente quando as pessoas são rudes
comigo.
Sarah: Eu não fui rude com você.
Eu: Ah, não. O seu 'foda-se'
é algo fodidamente simpático.
Sarah: Eu só logo percebi o seu
subterfúgio, que, diga-se de passagem, foi
muito fraquinho.
Eu: Ah, ok ok, senhora das supremas e
infalíveis tergiversações. Depois você
pode me dar aulas para eu aprimorar essa
minha deficiência.
Sarah: Eu não imaginava o quão tímido
você era.
Eu: Eu, tímido? Imagina. Eu sou a
pessoa mais extrovertida do mundo.
Sarah: Extrovertido não, mas
certamente é o mais irônico.
Um silêncio pairou no ar por alguns
segundos. O afunilamento do diálogo fazia
com que minhas pernas se desestabilizassem
um pouco e que uma longa fisgada cruzasse as
minhas costas. Sarah olhou-me nos olhos e
começou a mover o seu rosto. Em seguida
fechou os olhos. Automaticamente, fiz o
mesmo. Aquilo era tão natural que eu já não
conseguia me controlar mais. Parecíamos
duas marionetes sendo controladas e
impulsionadas a uma sensação de esquivança
a princípio. Sua boca aproximou-se da minha
e uma gélida brisa balançou meus cabelos.
Meu pescoço inclinava-se. Estava
completamente impotente perante àquela
situação.
No segundo crucial, no ápice, no clímax,
acontece um estalo. Um estrondo altíssimo,
e em seguida, um falatório por parte das
pessoas. Abro os olhos, altamente sem graça,
e duzentos e quarenta e cinco pontos de
interrogação formam-se acima da minha cabeça.
Sarah fica mais espantada com o estalo do
que propriamente sem graça e sua
curiosidade instintiva leva-a a aproximar-se
do muro da sacada. Então percebe que um
cidadão que estava muito provavelmente sob
o efeito de alucinógenos despencou lá de
cima e desabou sobre o teto de um caminhão
de refrigerantes. Inexplicavelmente, ela
começa a rir.
Eu: Esta rindo do que? O cara pode
ter morrido.
Sarah: Antes ele do que eu.
Eu: Excelente este raciocínio.
Sarah: Você já me disse isso uma
vez.
Eu: Sim, disse.
Sarah: Vamos tomar mais umas
cervejas?
Eu: Obviamente.
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