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Difícil
acreditar, mas não é que ele resolveu falar
por si mesmo? Sim, ele resolveu, digamos,
iniciar seu processo de independência. A
melhor forma de fazer isso é através da
boa e velha verborragia, claro, e ele sabe
disso. Sabe também que o tempo corre no
sentido contrário – o tempo parece ser
seu inimigo maior. Sua única virtude é
saber enxergar além das situações, esteja
subentendido ou gritante em seu ouvido. Tem
pressa, mas também tem medo. Medo,
inclusive, de que percebam que ele é suscetível.
Outro dia estava na frente do espelho
tentando fazer ‘cara de simpático’.
Sabe o pior? Ele não conseguiu! A verdade
é que o que ele sempre quis foi um
pouquinho só de atenção. Ela, pelo contrário,
tem atenção até demais. Outro dia, ele a
encontrou por aí, ou melhor, na sala de
espera do dentista... (seus dois sisos
estavam nascendo ao mesmo tempo). Semanas
depois a encontrou numa festa não muito
animada, mas, sem se importar com isso, ela
dançava, tremulava, pulava, enfim, parecia
uma pessoa qualquer em pleno ataque epiléptico.
Não lhe pareceu muito normal e não dava
mesmo pra encarar a alegria hiperbólica da
menina com naturalidade. Então ele
chegou para dar
um oi ou perguntar sobre como estavam
seus dentes e, por desatenção, deixou seu
copo de cerveja cair em seu vestido. Ela até
deve ter ficado puta ou chateada, mas disfarçou
bem, indo ao banheiro sem olhar para trás.
Não sabia se a esperava – qualquer
atitude conciliatória após sujar o vestido
de uma mulher é encarada como a cereja de
um bolo indigesto – ou se saía covardemente
pela porta dos fundos. Resolveu esperar.
Esperou, esperou, esperou... Depois de quase
uma hora e quinze minutos ela voltou.
Desculpas, pediu ele, silêncio, ela fez.
Sua cara de pô,
foi mal mesmo... não era suficiente.
Ele precisava fazer algo mais, só que não
era muito criativo. Eu te dou outro vestido,
disse, coçando o rosto e olhando fixamente
para o chão... Ela resmungou qualquer coisa
e correu para um lugar afastado da multidão.
Não a deixou se distanciar muito e, quando
a encontrou, ela lhe deu as costas. O
problema não é o vestido, disse ela. Riu,
sabia que estava mentindo. Você pode jogar
cerveja na minha roupa também se quiser,
ele falou, você acha que sou tão mesquinha
assim, perguntou ela. Parecia estar piorando
as coisas. Parou, pensou por alguns segundos
em alguma forma melhor de se desculpar...
Sabia, na verdade, que ela não toleraria a
presença de qualquer espécie de silêncio,
portanto, era melhor ele pensar em alguma
coisa. O que você vai dizer agora,
perguntou ela. Nada, disse ele. Ela não
entendeu, e perguntou como assim nada?
A
beijou, então, repentinamente, deixando-a
sem ação, um longo beijo, daqueles que te
tiram o fôlego.
Ótima
forma de se desculpar, disse ela.
Mas
o meu vestido ainda continua molhado.
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