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Um cachorro vira-lata foi resgatado pelos bombeiros na manhã desta terça-feira (15) no Rio Tamanduateí, próximo a Avenida do Estado, no Centro de São Paulo. Segundo o Corpo de Bombeiros, o animal teria caído acidentalmente e o próprio dono chamou o resgate. Após ser retirado do rio, o cachorro foi devolvido ao proprietário. (Foto: Paulo Liebert/AE)

Dias fatídicos são sempre mais demorados. Questão de obviedade, claro, mas acima de tudo questão de ter pena de si mesmo. Já faz tempo que todos os meus dias são, ou melhor, estão fatídicos. E eu, negligente, não tomo atitude alguma para reavivá-los. Talvez por exercer a profissão de bombeiro, estou sempre à espera. Ontem, por exemplo, superei o meu recorde profissional ao participar de 15 operações de salvamento, entre as quais incêndios, acidentes de trânsito e um bêbado imbecil que não conseguira descer de um poste, no qual subiu a fim de dormir supostamente sob a luz divina. No entanto, quando cheguei em casa, por volta das seis da manhã, senti-me comumente apático. Tomei o café do dia anterior, acendi um cigarro e sentei na cadeira de praia da varanda. Depois de muito refletir, cheguei à conclusão de que ser bombeiro – por mais humanamente legal que seja – não me traz tipo algum de valia ou satisfação, já que, por muitas vezes, tive vontade de terminar com a vida de um indivíduo em questão do que propriamente salvá-lo.

Minhas crises existencialistas, aliás, não são novidade. Desde a época em que tranquei a faculdade de veterinária - para nunca mais voltar -, vivo sob constantes sessões de autocrítica. Quando pequeno, por volta dos quatro ou cinco anos de idade, gostava mais de animais do que, por exemplo, alguns dos meus familiares - leiam-se parentes distantes. Aos sete anos, ganhei uma Beagle, a quem batizei de Coraline. Anos mais tarde, já na época do Colegial, pentelhei o saco da minha querida figura materna para que esta adquirisse um São Bernardo. E é claro que a avareza da Dona Tereza não foi páreo para a persistência irredutível do rebento pentelho. Com dois cães e uma série de responsabilidades, vi-me obrigado a negociar minha bicicleta Caloi, dezoito marchas. Só que o comprador não pertencia à minha lista anual de "pessoas suportáveis", o que quase me fez desistir. Até hoje, lembro-me dos diálogos com o referido sacripanta.

- É, Marcos, acho que você não tem escolha. São 350 pilas, certamente a melhor oferta até então. E aí, vai ou não vendê-la? - intimou o maldito.

- Pois é, Carlos. Devo admitir que não esperava um comprador tão indigno de minha Caloi dezoito marchas. No seu caso, acho que um carrinho de rolimã seria mais apropriado. - falei, a fim de diminuí-lo antes de bater o martelo.

- Limite-se a responder minha pergunta - disse Carlos, já um tanto quanto impaciente.

- E qual era mesmo? - questionei, cínico.

- Você vai ou não vender a merda da bicicleta? Decida-se! Não sou de ficar perdendo meu tempo com fracassados como você - sentenciou.

- Engraçado que, até para ofender, você é um indivíduo totalmente previsível e refutável. Antes de vir aqui, encontrar-me com a sua detestável pessoa, fiquei na dúvida se tomava três doses de Chivas Regal ou duas de Bourbon. Afinal, estou prestes a negociar minha tão apreciada bicicleta com o sujeito mais repugnante da história. Acho que não conseguirei fazer isto sóbrio - falei, esquecendo-me por um minuto da oferta de 350 pilas.

- Seu cretino filho da puta, o que você tem na cabeça? Por acaso, sua bicicleta tem diamantes cravejados ou algo do tipo? Vá se foder, peste. Não quero mais esta merda - disse Carlos, virando-se, bufante e vermelho de ódio.

- Sem problemas, rapaz. Vendo para o Mathias - falei, já prevendo as reações.

Mathias era o grande rival de Carlos. A popularidade entre os colegas de escola, principalmente no que diz respeito ao sexo feminino, era o alvo preferido de disputa entre estes dois pobres coitados. Ambos provinham de família rica, cujo potencial financeiro barganhava absolutamente tudo. No entanto, eram dois pobres coitados - no sentido simbólico da expressão. A família de Carlos, os Filhadaputari, exportava 60% do vinho consumido em todo o mundo (se bobear, o vinho que Jesus bebera era um Vino Nobile di Filhadaputari). Já a família de Mathias, uma das lusitanas mais tradicionais, podia abastecer toda a população mundial com a produção de azeite em suas fazendas no interior paulista. Enquanto isso, eu, fruto da união entre um sapateiro e uma vendedora de cosméticos, morava em um apartamento de classe média baixa na Vila Madalena.

Usar o nome do rival Mathias nas negociações com Carlos foi uma daquelas jogadas que só os grandes enxadristas ou os viciados em poker têm capacidade intelectual para realizar. Por uma excelente bagatela, 350 pratas, a minha bicicleta Caloi dezoito marchas - que, na verdade, nem tinha tanto uso - passara às mãos de Carlos. Com a renda obtida, consegui comprar uma simpática casa para Coraline e Pietrus. A diferença de tamanho entre os dois era assustadora, mas isso não impedia e nem interferia na harmonia do lar. Coraline usava Pietrus como cama e travesseiro, que, por sua vez, usava Coraline como lençol. Em outras palavras, Coraline dormia confortavelmente sobre o Pietrus, e eu achava isso bonito pra caralho.

Fiquei com Coraline e Pietrus até 1986, ano em que ingressei na Faculdade de Veterinária. Motivado a cuidar de todos os animais do mundo com o mesmo élan e afinco que tinha com os meus cães, dediquei-me integralmente aos estudos e, para surpresa até mesmo da Dona Tereza, fui o primeiro colocado no vestibular para Veterinária. Nos cinco primeiros meses, minhas notas variaram entre dez e nove e meio. Tal empolgação com os rumos de minha vida profissional só viria a ser abalada com a notícia de que Pietrus contraíra um câncer no estômago, diagnosticado no mês de agosto daquele mesmo ano. Num período de três semanas, ele ficou mais debilitado do que uma criança africana subnutrida e, após duas cirurgias e um sem número de diagnósticos dos mais variados especialistas, morreu logo no início de setembro. Nesta altura, minhas notas já variavam entre seis e sete e meio.

A morte de Pietrus foi um baque indescritível não só para mim, mas como também para Coraline. Sem o companheiro de longa data, a antes tão alegre e entusiástica Beagle se transformou em um animal triste, apático e insone. Já não ingeria qualquer tipo de alimento (nem a antes tão saborosa carne moída) quando a levei a dois veterinários diferentes, a fim de conseguir o melhor diagnóstico. Ambos foram enfáticos: depressão. A partir daí, sob minha companhia, ela passou a passear por pelo menos três vezes diárias nas redondezas da Vila Madalena e no Parque do Ibirapuera. Mas nem o contato com outros cães, nem os meus esforços no sentido de recolocá-la nos eixos foram suficientes. No mês de dezembro, uma semana antes do natal, Coraline morreu enquanto dormia. Quando fui vê-la, pela manhã, emocionei-me com a sua aparência serena, como quem havia se livrado de um grande e doloroso fardo. Por esta época, minhas notas já estavam abaixo de quatro.

Em 1987, decidi trancar a faculdade, já que tomei cano em cinco das sete matérias do segundo período. Dois anos mais tarde, resolvi que era já estava na hora de morar sozinho e aluguei um micro apartamento em Diadema. Passei por vários empregos, desde atendente de livraria até entregador de pizza. Em 1990, ingressei no CEIB - Centro de Instrução do Corpo de Bombeiros, motivado por que não sei. Em agosto de 1991, participei da operação no incêndio do Terminal da Ultragaz-Mooca, na Zona Leste (para se ter uma idéia, o fogo ficou concentrado no setor onde estavam depositados 3.500 botijões de 13 quilos, além de centenas de cilindros de 45 e 90 quilos de uso industrial e que armazenavam mais de duas toneladas de gás). Logo em 1996, atingi a patente de terceiro-sargento. E, agora, aqui estou. Sentado na cadeira de praia da varanda.

Quando finalmente pensei em dormir ou, pelo menos, quase isto, vi que já estava na hora de retornar à labuta diária. Trabalhar virado não é necessariamente ruim, o ruim é perder o seu tempo de sono com reflexões desnecessárias acerca da sua merda de vida. Vesti-me com o tradicional traje rubro-cocô, li as três primeiras páginas do jornal e iniciei o sacal percurso até a Corporação. Ao chegar, dei bom dia para os meus colegas e fiquei à espera do primeiro chamado. Passaram-se duas, três, quatro horas e nada. Até que um dos meus grandes colegas, o competente cabo Andradas, sorriu ironicamente ao escutar uma chamada na rádio escuta.

- O que temos, Andradas? - perguntei, já ansioso para começar efetivamente o trabalho.

- Você não vai acreditar - respondeu, com mais um meio-sorriso.

- Não vá dizer que é mais um bêbado pendurado em algum poste? - questionei.

- Parece que um cão maluco caiu num rio próximo à Avenida do Estado. O dono está desesperado - respondeu.

Foi então que lembrei de Coraline e Pietrus e o meu desespero quando ambos entraram em estágio terminal. Fui tomado por uma irredutível vontade de ajudar o tal cão, mas, sinceramente, não reuniria condições psicológicas de participar desta operação. Desde a morte de Coraline, não consegui criar ou cuidar de animal algum, pois tinha a certeza de que, em algum dia, ele me deixaria a ver navios neste mundo medíocre.

- Andradas, comande você esta operação - sentenciei.

- Desculpe, Valadares, mas isto seria contra a ordem hierárquica da Corporação - disse, sem mais delongas.

- O senhor tem razão, cabo Andradas. Infelizmente - respondi.

E assim nos dirigimos ao local do acidente, eu, o cabo Andradas e o cabo Bragança. O famigerado caos do trânsito paulista só fez com que o meu nervosismo aumentasse ainda mais, de forma que, a cada semáforo, ingeria uma pílula de tranqüilizante. Pedi para que o motorista, o soldado Álvaro, ligasse a sirene no trecho da Avenida do Estado, o que facilitou a nossa chegada ao Rio Tamanduateí. O dono do cão, identificado como Rodolfo, estava aos prantos. Olhei para baixo e lá estava o pobre animal lutando firmemente contra a correnteza. Milhares de cenas foram surgindo na minha cabeça, de alegria e tristeza, de saudade e frustração. Mas não era hora para nostalgia. Andradas e Bragança montaram o aparato de salvamento, e eu desci por uma corda e com outra em mãos, a qual encaixei cuidadosamente no corpo do cão. Em seguida, Andradas e Bragança o ergueram até a borda do rio, enquanto eu acompanhava ao resgate com algumas lágrimas secas nos olhos. O dono do cão, por sua vez, chorava tanto que não demoraria muito para que o Rio Tamanduateí transbordasse.

- Muito obrigado. Não tenho palavras para agradecer o que vocês fizeram pelo Suker. Não sei o que faria se eu o perdesse - disse Rodolfo, que aparentava ser um homossexual de aproximadamente vinte e três anos, ainda mais com a voz esganiçada.

- Cuide bem do Suker, a partir de agora - falei.

- Pode deixar - respondeu Rodolfo.

Suker me olhava insistentemente. Olhares tímidos, mas que passavam uma espécie de mensagem, um por-favor-fica-comigo. Pedi ao Bragança que providenciasse uma toalha, já que o cão vira-lata, apesar de forte, tremulava de tanto frio. Queria enxugá-lo com minhas próprias mãos, mas não conseguia chegar perto. Afinal, o tal receio da despedida, que não seria uma despedida propriamente dita, pelo menos não em um sentido fúnebre, já estava a me corroer novamente. Foi então que o próprio Suker se dirigiu até mim e, tal como uma criança que pede colo, parou, ergueu a cabeça e lançou olhares ainda mais carentes (cenas fodidamente nítidas dos momentos com Coraline e Pietrus foram brotando segundo a segundo). Receoso quanto a cair no choro frente aos meus colegas de trabalho e demais pessoas que ali estavam, despedi-me de Suker e retornei ao veículo de resgate.

Duas semanas depois, quatro cães se mudaram para o meu apartamento. 

FIM
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