I

Kierkegaard dizia: "O mais difícil não é seduzir uma mulher, mas sim encontrar uma digna de ser seduzida". Não que o filósofo do existencialismo cristão (que, aliás, vangloriava-se de seu sucesso com as escandinavas antes de se tornar um carcinza religioso), a quem muitos consideram verborragia adolescente, estivesse equivocado. Mas a contemporaneidade (sempre ela) modificou o plano da prioridade, por assim dizer. Hoje, Kierkegaard admitiria que toda e qualquer mulher merece o mínimo de atenção e análise crítica, sucedidos, claro, de doses letais da mais pura e autêntica arte persuasiva. Ainda mais se são do tipo "falo pouco, faço muito".

Kierkegaard, inclusive, me faz lembrar de minha ex-esposa, Vitória Régia, cuja personalidade é comparável a de uma goma de mascar em processo de degradação. Vitória, tal como qualquer outra mulher virtuosa, não tinha limites quando o assunto era erigir conceitos supervalorizados de si mesma. Quase sempre prolixa, não soube em momento algum expor suas opiniões sem recorrer ao "se não concordar comigo, peço o divórcio". Determinada vez, para vocês terem uma idéia, ela resolveu fazer pouco caso da situação pela qual nos conhecemos.

- Você, por acaso, seria capaz de lembrar como nos conhecemos? - perguntou, com um sorriso meticulosamente apropriado ao sarcasmo de suas palavras.

- Bom, eu pouco lembro do nosso primeiro encontro. Sei que fora à noite, o céu estava estrelado, bebíamos algo; tinha, afinal, entorno romântico - respondi, esquivando-me.

- Sim, mas... Como você, afinal, entrou na minha vida? - replicou, insistente.

- É... Faz diferença para você? - falei, cogitando a possibilidade de deixá-la falando sozinha.

- Na verdade, não - ronronou, pensativa.

E não fazia mesmo. Melhor não entrar em detalhes.

Refletiu por alguns segundos, em silêncio. Respirou fundo, como quem havia abastecido os pulmões com coragem e astúcia, e bradou:

- Precisamos conversar.

- Sobre? - questionei, indiferente.

- Somos adultos e devemos agir como tal. O fim da linha de um casamento não pode ser tão simplório assim. Precisamos conversar e chegar a um consenso - afirmou.

A desagradável conversa foi levada em tom wagneriano. Provida de falsetes abafados contendo fugazes cápsulas de ironia e maledicência, nossa pequena tragédia dialogal só fora interrompida pelo tilintar do relógio (eram seis horas e já estava para começar a série "The 70's Show", a qual eu e Vitória éramos telespectadores assíduos). Retomamos às oito, após o jantar - pizza de calabresa, já que minha ex-esposa sempre fora um total fracasso no que diz respeito à gastronomia, por mais básica que esta seja. Depois de um curto período em silêncio - já não havia mais argumentos de ambas as partes e o noticiário estava prestes a começar -, Vitória sacou do bolso de seu casaco um pequeno panfleto - nas cores vermelho e azul -, e me olhou tal como Mendel quando descobrira uma finalidade alternativa para as ervilhas.

- Já sei. A solução atende pelo nome de Aristóteles Peru - falou, mostrando-me o panfleto.

Quem diabos era Aristóteles Peru? No tal panfleto, o próprio se descrevia como a solução eficiente para todo e qualquer problema conjugal. Na verdade, ele era um famoso autor de livros de auto-ajuda e ganhava uma bolada dando palestras por todo o país sobre como manter a harmonia e o relacionamento saudável após o matrimônio, além de promover constantes terapias para casais. Vitória acabou por me convencer a procurar o potencial charlatão metido a Santo Antônio e, no dia seguinte, estávamos sentados em uma carteira escolar ouvindo um sem número de baboseiras sobre como evitar brigas na hora de trocar uma lâmpada, abrir uma lata de palmito ou até mesmo como desconsiderar provocações no decorrer de transmissões televisivas de eventos esportivos e tudo o mais.

Até aí, tudo bem. Mas qual não foi o meu espanto quando o Senhor Peru sugeriu que eu e Vitória participássemos daquilo que os balzaquianos chamam de swing. Para ser sincero, o que me deixou de fato boquiaberto foi a prontidão com que minha ex-esposa aderiu à idéia. Sem muito saber o que estava fazendo, concordei com a sacripanta.

Uma semana depois, voltamos ao consultório de Aristóteles Peru e, logo de cara, fomos apresentados ao casal Cassandra e Bobby Salamandra. Ele, muito simpático, se encarregou da iniciação dialética. Bobby era do tipo antilibertinagem (¬¬) e demonstrava nítida preocupação em reforçar o amor por sua esposa, fosse com gestos, abraços ou atitudes lascivamente piegas, ou até mesmo com elogios gratuitos e comentários ligeiramente forçados acerca da beleza de Cassandra, que não parava de roer as unhas. Já entediado, cricrilei algumas palavras gentis para ela, que respondeu com olhares convidativos. Vitória, angustiada, deu um leve e discreto chute na minha perna direita e, em seguida, sussurrou no meu ouvido.

- Aqui é tudo muito casual, sem profundidade. Você não precisa simular uma espécie de flerte, seu babaca.

Respondi com um sorriso. Antes que eu esbaforisse uma asneira qualquer, Aristóteles Peru adentrou o consultório portando um tripé, algumas fitas VHS e uma parafernália que muito se assemelhava a uma filmadora ou algo do tipo. Dera a justificativa de que faria tudo para tornar o ambiente mais agradável e menos formal, o que, obviamente, não foi o suficiente para nos deixar menos preocupados. Após montar o aparato cinematográfico e colocar o filme "Festa carnal em Bruxelas" no aparelho de vídeo, retirou-se do consultório. A partir daí, você já consegue imaginar o que aconteceu.

FIM
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CAPÍTULO II