II

Ao se retirar, Gorki não pensou duas vezes. Dirigiu-se à Praça das Andorinhas Peludas, esquina com a Avenida Conrado LuaLua, para um de seus afazeres prediletos: comentar os novos acontecimentos da vizinhança. O ponto de encontro era o botequim de Armando Quintanilha, que, além de proprietário do referido estabelecimento, também era o bicheiro oficial da região. Ansiosa pela gratuita destilação de veneno, a hipocondríaca Gorki mal teve paciência para esperar o elevador. Lançou-se às escadas sem maiores preocupações, em uma velocidade definitivamente incomum para uma senhora de 64 anos. Quando chegou ao hall, parou e descansou. Ofegante, lutando para respirar, caminhou lentamente até a caixa de correio (todo mês, ela recebia algo em torno de onze ou doze caixas com amostras grátis dos grandes nomes da indústria farmacêutica). Ficou decepcionada ao ver que a Roche não lhe enviara mais caixas de Lexotan. Mas tudo bem. O porvir daquela tarde seria a mais eficaz e motivante medicação que Gorki poderia desejar. E, o melhor - sem receitas, sem contra-indicações.

Chegando próximo ao local, caiu em si e viu que estava atrasada. "Mas que merda!", pensou. Esse tipo de descuido poderia fazer com que outra fofoqueira desse o excepcional furo de reportagem. Entrou em pânico quando, ainda na banca de jornal do Barba, do outro lado da rua, avistou Dona Samantha, Dona Mirtes e Dona Terezinha da Perna Fina a postos no Botequim do Quintanilha, todas rindo, cochichando deliberadamente. Quis chorar nesta hora, mas terminou por levantar a cabeça, empinar o nariz, respirar fundo e caminhar ao encontro das companheiras de fofoca. O sopro de coragem, porém, não durou muito e Gorki deu uma leve tropeçada no momento em que Mirtes acenou com a mão. E só não veio a tropeçar efetivamente porque, quando se deu conta, já estava na porta do botequim.

Samantha, de 69 anos, Mirtes, 63, e Terezinha da Perna Fina, 67, eram as famigeradas broacas da cidade. Não casaram, não engravidaram, nunca bebiam ou colocavam um cigarro na boca, tampouco se masturbavam ou tinham concepções sexuais mais modernas. As três irmãs viviam a base de missa e fofoca, novelas mexicanas e vitamina de graviola, cachorros e gatos andando pela casa e o sonho de conhecer a cidade de Jerusalém. A última a ter um namorado (ou algo que o valha) foi a caçula Mirtes, isto quando tinha 25 anos de idade. Mas seus planos foram interrompidos por uma tragédia sem precedentes - o rapaz era um famoso astronauta, que morreu em um acidente na antiga base espacial da cidade. Já Samantha e Terezinha chegaram a noivar na época de mocidade. Mas o empecilho-mor para a evolução das respectivas vidas sentimentais sempre esteve agregado às restrições no âmbito sexual, isto é, nenhum homem da cidade cogitava a possibilidade de se envolver com as irmãs-calcinha-de-ferro, como eram conhecidas na época.

Gorki adentrou o botequim com um leve sorriso no rosto, um pouco trêmula e com um receio colossal de que a concorrência estivesse à frente no episódio da gravidez de Conceição. Sentou-se ao lado de Mirtes, que, ao observar a tensão da colega de fofoca, foi tomada por uma eminente curiosidade.

- Gorki, aconteceu alguma coisa? Você está pálida, ofegante e visivelmente preocupada. O que houve, querida? - perguntou Mirtes, que esperava ansiosamente pela porção de salame pedida há pouco mais de quinze minutos.

Samantha e Terezinha da Perna Fina, atentadas para o detalhe, cruzaram olhares arregalados. Gorki se manteve em silêncio por alguns segundos, respirou fundo e, finalmente, colocou em prática a sua infindável estratagema.

- Estou preocupada, muito preocupada. Acabo de voltar da casa da Conceição, que deu à luz a um pobre menino, a quem muito temo por seu futuro. Filho de uma prostituta com açougueiro, vê se pode! - disse a hipocondríaca, feliz por esbaforir toda a carga de informação obtida naquele dia.

As amigas não acreditaram, a priori. Ficaram estupefatas com a notícia, que as deixou sem palavras. O silêncio só foi interrompido pelo garçom Salgado, que finalmente serviu a porção de salame. Ele, já acostumado com a diária troca de informações sobre a vida alheia, limitou-se a pedir desculpas pelo atraso, alegando que a cozinha passava por algumas reformas (em virtude de problemas recentes com a Vigilância Sanitária).

Aliás, fora Salgado o responsável por atribuir a palavra Gorki - cujo significado, em russo, quer dizer amargo, intragável - àquela senhora de nome e origem desconhecida. Durante o tempo em que desempenhou a função de guarda noturno, ele encontrara vários indigentes vagando pelas ruas, dentre os quais estava uma senhora relativamente bem cuidada, com uma mala em uma das mãos, e uma expressão de tristeza e abandono. Comovido, prontificou-se a ajudá-la, e terminou por encontrar um pedaço de papel contendo o endereço do prédio Lisandro Vega, quarto andar, apartamento 409. Quando lá chegou, verificou que o apartamento, antes abandonado, tinha sido cuidadosamente reformado e mobiliado a fim de receber aquela senhora. Não interessado em buscar maiores explicações, isto é, rejeitando a idéia de participar de uma possível intriga internacional (quando não estava trabalhando, passava dia e noite assistindo aos filmes do Hitchcock), deixou-a lá, sentada em um confortável sofá GiroFlex.

Gorki, feliz com o triunfo, contou então todos os detalhes do nascimento de Mosquito. Obviamente, não poupou elogios a si mesma por ter socorrido Conceição e chamado providencialmente o macumbeiro Hilbert. Relatou todo o comportamento de León, inclusive, incluindo uma série de previsões apocalípticas quanto ao futuro do casal. Criticou também o vizinho Matías, a quem chamou de baitolinha. Tanto veneno fez até mesmo com que as amigas e concorrentes de fofoca, já acostumadas com a maledicência do ofício, distribuíssem sorrisos indissolúveis.
FIM
CAPÍTULO I
 
CAPÍTULO III