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I |
Ele nasceu em meio à polêmica, que se espalhou rapidamente pelo prédio
Marechal Lisandro Vega, cuja localização se dá entre o prostíbulo e o açougue.
Ninguém se preocupou em dar as boas vindas - o
façam-se honras - ao fruto do cruzamento entre Conceição
Mantorras e León do Espírito Santo, prostituta e açougueiro, respectivamente.
A parteira oficial da cidade estava em greve, e, o pior, fizera a cabeça de
todas as outras parteiras, que aderiram à causa (reivindicava carteira assinada
e pagamento de extras em caso de gestações complicadas). Desta forma, viera ao
mundo pelas mãos do macumbeiro Hilbert, chamado às pressas por uma vizinha
hipocondríaca de Conceição. Ninguém, nem no prédio, nem na cidade, sabia o
nome verdadeiro da hipocondríaca. Assim, ganhou o apelido Gorki
(explicações nos próximos capítulos). Não pense você que, pelo fato de ter
socorrido a vizinha grávida, a hipocondríaca Gorki era uma boa pessoa. Todo o
qüiproquó em torno do relacionamento entre Léon e Conceição fora de
responsabilidade desta senhora - desde o domingo da promoção no açougue, dia
em que se conheceram (o quilo da maminha custava apenas cinco pratas) até a
noite romântica no drive-in (várias juras de amor, embaladas por Lionel Richie
no toca-fitas, foram feitas naquela Maverick GT76).
O ser recém-parido, de nome Mosquito Louis, não chorou ao ter sua primeira visão
panorâmica de mundo. E não foi por falta de insistência do macumbeiro
Hilbert, cuja alcunha era O matador de
bodes. A bunda da criança fora esbofeteada com veemência e uma espécie de
comprometimento profissional, o mesmo que lhe rendeu um status nongrato na
sociedade defensora dos animais. A improvisação foi tamanha que o corte do
cordão umbilical fora feito com o canivete de bolso do vizinho gay Matias
Bocanegra, que se derreteu em lágrimas durante todo o parimento - León chegou
a pensar na possibilidade de ir ao açougue buscar suas discretas ferramentas de
trabalho, mas não havia tempo hábil. Poucos acreditavam no sucesso da gestação,
a começar por León. Enquanto os uivos de Conceição ecoavam pelo interior do
ajaezado apartamento de quarto, sala, cozinha e banheiro, o mal humorado açougueiro,
tomado pelo arrependimento, proferia maldições contra todos os que ali
estavam.
Após o nascimento, Gorki parabenizou a mais nova mãe da cidade e se retirou,
deixando para trás um forte aroma de cinismo e maledicência. Já Matias deu um
forte aperto nas bochechas da criança e também voltou para sua residência. León,
mais calmo, sentou-se ao lado de Conceição e fez carinho em sua cabeça.
Depois, olhou para Mosquito e disse:
- Não se parece muito comigo, mas quem se importa? Daqui a alguns anos, vai ser
o melhor açougueiro que esta cidade já viu.
Conceição franziu as sobrancelhas e sorriu, debochando do comentário.
O macumbeiro Hilbert foi o último a deixar a casa, mas não antes de dar sua
"benção". Procurou por ervas em todos os cantos, mas o máximo que
encontrou foi um molho de alface, que estava há uns três meses na geladeira.
Cumprido o ritual do esbofeteamento sagrado, o macumbeiro despediu-se dos pais e
improvisou um desfecho profético para a epopéia cirúrgica.
- Este menino foi enviado por Didier, o Todo Poderoso, e será uma luz para a
vida do casal. Que esta criança cresça de forma saudável e pródiga. Decerto,
a harmonia vai imperar neste lar e o valor da família será lembrado para
sempre como primordial e inviolável.
Duas semanas depois, Conceição deixou o lar por conta das sucessivas brigas
com León. Ela levou Mosquito para a casa da mãe, que ficava há dois quarteirões
do prostíbulo, e, assim, o visitava todas as noites (por volta das sete ou oito
horas, sempre antes do início do expediente). O pai, amargurado, resolveu se
dedicar única e exclusivamente ao seu ofício na tentativa de apagar os
acontecimentos da memória. Então, criou o primeiro açougue 24 horas da
cidade, tendo, inclusive, entrega
em domicílio. Ele
culpou o filho pelo fracasso do relacionamento conjugal e jurou para si mesmo
que nunca mais o veria.
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