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19/JUN/2008
- 21h45min - Escrevo este texto
diretamente de Mitilene, capital de Lesbos,
uma ilha grega localizada no nordeste do mar
Egeu. Para quem pensa que na Grécia só há
pilastras brancas de concreto e estátuas de
homens nus com panos sobre os ombros, devo
dizer que as praias de Lesbos não devem em
nada às do litoral brasileiro. E com o
adendo de que o ar é mais fresco,
revigorante, o que torna a cidade uma
excelente alternativa para se tirar uns dias
de férias. A ilha é montanhosa e o verde
é predominante, afinal, os lesviois
são bastante educados e têm uma consciência
ecológica invejável. Eles a apelidaram de
Ilha Esmeralda, tamanha a diversidade da
flora – para se ter uma idéia, 60% da
região são de oliveiras e árvores de
outros frutos, florestas de pinheiros e
carvalhos. A cidade, cuja principal
atividade econômica é a agricultura,
explora muito bem o seu potencial turístico.
Mas
a minha missão aqui nesta ilha não é
contemplar as suas belezas naturais e sim
escrever um artigo para a revista na qual
trabalho sobre a revolução das lésbicas,
ou melhor, das mulheres nascidas
em Lesbos. Há
, segundo informações da imprensa local,
uma organização não-governamental chamada
Mulheres
de Fibra, que pretende lançar uma
campanha mundial para abolir esta adjetivação
dos dicionários e do vocabulário das
pessoas. A partir daí, a referida palavra
seria considerada como de cunho discriminatório
e determinadas sanções seriam previstas
pelo código penal de cada nação. Uma
pauta e tanto, convenhamos.
Acontece
que o tal grupo de mulheres se reúne em
segredo e só se expressa por meio de
panfletos distribuídos nas igrejas, nos
centros comerciais e nas cafeterias. Devo
confessar que o meu primeiro dia em Lesbos não
foi muito produtivo e o prazo para enviar o
artigo termina em dois dias. Até o momento,
consegui somente aspas de figuras comuns,
tais como beatas que dão apoio logístico
ao movimento, cidadãos favoráveis e contrários
à idéia, políticos que reiteram a
inconstitucionalidade do projeto e, por fim,
uma senhora de 87 anos que diz ser a
reencarnação de Safo (explicações
adiante) e já ter tido relações sexuais
com mais de 1.500 mulheres.
Em
resumo, estou fodido e não sei como agir.
Sou freelancer há apenas três meses e
emplacar uma reportagem como essa seria um
passo significativo rumo a uma possível
contratação. O aporte financeiro oferecido
pela revista foi mínimo, no real sentido da
palavra, de forma que a maior parte dos
custos da viagem será minimamente
detalhada nas minhas próximas faturas do
cartão de crédito. Portanto, não posso
nem pensar em voltar para casa com as mãos
abanando.
Bom,
já está ficando tarde e eu ainda preciso
me arrumar para ir a um lugar chamado Ômega-Sigma,
onde, segundo informações, estará uma
jovem, que, possivelmente, seria uma das
integrantes do Mulheres de Fibra. Ademais,
estou curioso para experimentar o tal do
ouzo, uma espécie de licor típico da Grécia.
Enfim, boa noite e bom sono para vocês. E
esperem pelos próximos relatos.
A
CHEGADA. Hospedei-me em um pequeno
albergue próximo à Praça de Ayassos, que
fica a alguns metros do cais. Na chegada à
ilha, fui recepcionado pela Dona Yonassis,
proprietária do albergue, uma senhora de
uns 58 anos e com muitas histórias
interessantes. Seu inglês não era,
digamos, fluente, mas o bastante para me dar
as diretrizes de como iniciar o processo de
apuração.
-
Vá a Eresos. Aliás, os homens costumam
gostar muito de lá - disse.
-
Por qual motivo? - perguntei.
-
Muitas mulheres. Mulheres com mulheres. É...
(pausa) Como se fala... (pausa) - olhou para
cima, pois não encontrava o termo correto
em outro idioma.
-
Lésbicas? - perguntei, em tom sarcástico.
-
Não diga essa palavra a mulher alguma
nascida em Lesbos! Elas ficam extremamente
irritadas! - ronronou, arregalando os olhos.
-
Eu faço idéia - respondi, sorrindo
discretamente.
Resolvi
pesquisar a respeito. Sentei-me num simpático
e confortável banco da Praça de Ayassos,
abri meu laptop e busquei referências sobre
a história da ilha. No que diz respeito à
etimologia, a palavra “lésbica” (tal
como é concebido em todo o mundo) é, na
verdade, uma interpretação dos escritos de
Safo, uma poetisa homossexual grega que
viveu em Mitilene no século VII a.C. Daí a
associação semântica com o
homossexualismo feminino.
Na
internet, porém, não consegui informações
relevantes quanto ao tal Mulheres de Fibra.
A maioria dos links provinha de fóruns,
comunidades virtuais e redes de
relacionamento, que preservavam o anonimato
dos participantes. Conversando com um grupo
de jovens que aproveitava a tarde de sábado
na própria Praça de Ayassos, soube que
alguns dos panfletos feitos pela ONG podiam
ser encontrados na Igreja de Mitilene.
Aproveitei para caminhar e dialogar com mais
algumas pessoas. Foi assim que conheci a
Dona Gregoria, 87 anos – a possível
reencarnação da poetisa Safo.
-
São mulheres malucas, recalcadas,
doidivanas. O lesbianismo é um legado
cultural deixado por Safo, que reencarnou em
meu corpo assim que assumi a minha opção
sexual. De lá para cá, meu filho, foram
tantas experiências... - disse, suspirando.
-
Quantas, Dona Gregoria? - perguntei, rindo,
evidentemente.
-
Mais de 1.500. Pode anotar aí no seu
bloquinho - falou ela.
-
Mas a senhora conhece alguma integrante
desse grupo? Ou, pelo menos, suspeita de
alguém? - questionei.
-
Ah, algumas pessoas dizem que a Tina, filha
da costureira Acidália, está metida nisso.
Mas não há provas, acho que é maldade
desse povo - replicou.
-
E a senhora sabe onde posso achá-la? -
indaguei.
-
Não posso te dar o endereço, afinal, nem o
conheço. A única coisa que posso dizer é
que a Tina gosta muito de sair com as
amigas, principalmente num lugar chamado Ômega-Sigma.
Muitos jovens gostam de lá - respondeu.
-
Obrigado, Dona Gregoria.
A Igreja de Mitilene ficava não muito
longe dali, a umas duas quadras. Lá conheci
as simpáticas, porém extremamente
conservadoras, Eleni, Amynta e Berenike.
Depois de aproximadamente duas horas ouvindo
todos os sermões possíveis e imaginários,
elas confessaram: faziam parte, mesmo que
informalmente, do Mulheres de Fibra. Eram
responsáveis por difundir a idéia no meio
religioso e contribuíam mensalmente com 50
euros. No entanto, nunca participaram de
reuniões ou qualquer tipo de encontro com
as líderes da ONG.
-
Há uma espécie de filiação, pelo que
sei. Mas isso não nos interessa. Adotamos a
causa porque a consideramos justa. É
constrangedor pensar que, ano após ano,
milhares de turistas homossexuais visitam a
nossa ilha achando que só existem “lésbicas”
aqui. Sim, existem lésbicas, que são as
mulheres nascidas
em Lesbos. Não
tem nada a ver com a questão sexual -
cricrilou Eleni, um tanto quanto indignada.
Berenike
reforçou a tese.
-
Eles (os turistas) fazem piadinhas e acham
que Lesbos é a ilha da perversão. Ninguém
se importa com as nossas referências
culturais, com a nossa produção agrícola,
a qual tem potencial para abastecer muitas
cidades com alimentos da mais alta
qualidade. Nossos jovens crescem sob o olhar
sarcástico de indivíduos ignorantes. Isso
tem que acabar - declarou.
Amynta,
de poucas palavras, limitou-se a ler o título
de um dos panfletos do Mulheres de Fibra:
"Lésbica não é mera adjetivação".
Em seguida, deu-me cinco exemplares
diferentes, nos quais a ONG explica
detalhadamente o seu objetivo e convoca os
nativos da ilha para uma passeata no dia 20
de junho, às 11 horas (de Brasília), no
centro de Mitilene.
DIVERGÊNCIAS
NO PARLAMENTO. Peguei um táxi em direção
à Assembléia Legislativa a fim de
conseguir aspas dos políticos da região.
Pelas informações que conseguira até então,
imaginava que o projeto contava com o apoio
da Câmara, mas constatei justamente o contrário.
A cada dez deputados, oito não vêem o
Mulheres de Fibra com bons olhos e preferem
não se envolver com a polêmica. O
principal argumento é o de que o fim da
ligação semântica entre o termo lésbica
e o homossexualismo feminino seria
prejudicial ao desenvolvimento do turismo na
ilha.
Angelos
Papadiamantopoulos, um dos representantes da
bancada de Eresos, é um dos mais radicais
nas críticas à ONG. Para ele, se o projeto
for aprovado, Lesbos deve deixar de
arrecadar, anualmente, cerca de 150 milhões
de euros.
-
Não podemos deixar que a vaidade, o orgulho
e o individualismo tragam prejuízos aos
cofres públicos. O turismo é responsável
por mais da metade do nosso arrecadamento e
é essencial para o crescimento de Lesbos.
Os danos podem chegar a aproximadamente 150
milhões de euros. Nossa economia sofreria
um impacto irreparável - analisou o
deputado.
Já
Vangelis Konstantinou, de Plomari, um dos
poucos que defendem a causa do Mulheres de
Fibra, acredita num efeito inverso àquele
previsto pela maioria dos políticos.
Segundo Konstantinou, milhares de pessoas
considerariam a possibilidade de visitar a
ilha se a questão do homossexualismo
feminino não fosse etimologicamente
associada a Lesbos.
-
Temos mais a ganhar do que perder. Até o
nosso governador, Dimitris Vounatsos, sabe
disso. Trabalhar o turismo a partir de uma
perspectiva mais geral, abrangente, é
definitivamente mais lucrativo do que concebê-lo
de forma segmentada - disse.
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