I

Nessa vida tudo que fiz foi planejar. Tudo que consegui... Planos. Todos eles guardados num baú que escondi na garagem da minha razoável casa no bairro do Catete. Razoável mesmo, pois lembro que num destes planos de que falei constava uma casa grande, de dois andares – não gosto da casa cheia, de forma que a maioria dos quartos ficaria ou vazio mesmo ou seria usado para guardar os meus objetos – e com uma varanda que eu pudesse colocar uma rede e passar boa parte do tempo ali, fazendo palavras cruzadas ou lendo jornal. (Sempre tive um espírito colecionador e os jornais foram a última coisa que resolvi acumular. Hoje, provavelmente, na casa dos meus sonhos, eles estariam guardados em fileiras num dos quartos vazios do segundo andar, divididos por nome e data, e não empilhados de forma desorganizada na garagem.) O máximo que consegui foram dois quartos, duas salas, uma cozinha, dois banheiros (um no meu quarto e outro no corredor de acesso ao quarto que foi de Joana) e uma varanda pequena, porém simpática, decorada com o bom gosto da minha querida Agnes, cuja função atualmente é cuidar de sua floricultura, no Flamengo. Ela e a irmã, Bárbara, gostam muito daquilo lá. Eu costumo dizer que a ABFlores é o filho que Agnes não teve e a compensação pelo marido chato que a Bárbara arrumou. (E isso não é nenhum exagero meu; Lélio, marido de Bárbara, não passa de um borra-botas convencido, como se ser um ex-militar lhe conferisse uma patente a mais como pessoa.) Não tenho problemas em admitir que a floricultura de Agnes é responsável pelo nosso sustento de forma, digamos, líquida, mas isso não é uma verdade absoluta e inquestionável.

 

Chego ao set de filmagem de “Invasão Branca”, escrito por Roberto Villas-Boas, o cara mais casca-grossa e mais filho da puta que conheci até hoje, e agora dirigido pelo jovem Aristeu Santos, um dos destaques no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, pois Villas-Boas abandonou o barco assim que apareceu uma oportunidade mais rentável (eu poderia bancar o boçal e dizer "às minhas custas", mas ainda tenho um pingo de bom senso) no ramo do empresariado ("Villas-Boas é um vendido! Villas-Boas não passa de um filho da puta vendido!" se você preferir entender na própria linguagem do pessoal que trabalha com cinema). Vou direto checar se está tudo nos trinques para a gravação da cena quarenta e cinco, uma em que um português safado estupra uma índia indefesa. O filme, aliás, é sobre o período em que os portugueses safados escravizaram os índios nem tão indefesos assim na extração do Pau-Brasil (como se trocar bugigangas e quinquilharias pela mão-de-obra indígena não fosse escravização, ha ha ha). Os atores são ruins (quase todos eles trabalham na televisão e me parece que a televisão come o cérebro das pessoas), a produção é ruim, o roteiro é ruim, os câmeras são ruins, a fotografia é ruim, a trilha-sonora é ruim; esse vai ser o tipo de filme que os críticos vão saborear acompanhados de um bom vinho branco. Mas uma coisa nele já me faz ter certo orgulho de dizer aos meus colegas de praça que trabalho na construção do próprio: Joana Camargo. Jovem que abandonou tudo que tinha no Rio Grande do Sul (uma casa pobre em Santa Maria , cinco irmãos, uma mãe com tendências suicidas e um padrasto alcoólatra) em busca do sonho de tornar-se uma grande atriz. Como encontrei Joana? Não gosto muito de contar essa estória, pois me faz parecer um sentimentalista paquidérmico – ou uma espécie de velhinho bacana, o que é pior –, desses que você vai encontrar correndo na Praia de Botafogo ou fazendo ioga na Praça do Museu da República.

 

Estava eu dia desses passeando pelas ruas do centro da cidade (para ser mais exato, na esquina do Largo de São Francisco com a Rua do Ouvidor), quando presenciei Joana em maus bocados por não ter dinheiro suficiente para pagar um lanche que comera numa reles lanchonete. Não aparentava ser uma miserável (tênis, calça jeans e uma camisa do Internacional), mas seus olhos lacrimejantes expulsavam o medo - como os navegadores desesperados que usam baldes para tirar a água de dentro da embarcação em meio à tempestade - e a intimidação perante a enormidade social da cidade e a enormidade corporal do dono da lanchonete. Sem me dispor a conversa fiada, aproximei-me do rapazote que havia atendido Joana e interpelei quanto ao valor de sua dívida. "Cinco pratas.", disse ele. Não foram as cinco pratas mais bem gastas da minha vida, mas fiquei feliz em ajudar àquela menina, que logo depois veio agradecer dando-me um abraço repentino. "Sem chorumelas, garota." disse, na frustrada tentativa de afastá-la de mim. "Obrigado, senhor, muito obrigado" dizia ela, repetidas vezes, coisa que me fez enxergar o nível de sua estrutura emocional naquele momento. "Já paguei o seu lanche, garota. Agora tome o seu rumo." bradei, distanciando-me, à passos largos. Mas para Joana, com a vitalidade de sua juventude, foi mamão com açúcar me alcançar. "O que você quer, garota?" perguntei, não olhando diretamente para ela. "Posso saber, ao menos, o nome do senhor que me ajudou?" perguntou, num esforço quase geométrico para olhar nos meus olhos. "Antônio. Antônio Rossi. Satisfeita? Agora, menina, deixe-me ir!" disse eu, firmemente, agora olhando diretamente em seus olhos. "Não vai querer saber qual é o nome da menina que o senhor ajudou?" perguntou ela, colocando-se à minha frente para que eu não pudesse seguir a diante. "Mas será o Benedito?! O que você quer, garota? Quer dinheiro para o lanche da noite? Tudo bem, eu te dou, mas faça o favor de me deixar em paz!" disse, quase aos berros, enquanto ela fechava o rosto e me dava as costas, como uma criança no seu autêntico momento de pirraça. Fazia um bom tempo que eu não via esse tipo de coisa e já tinha até me esquecido de como era. (A última vez, para ser fiel aos fatos, foi quando Henrique, sobrinho de Agnes, levou o Patrick, aquela criança insuportável e destruidora, lá em casa. E isso tinha sido na semana anterior. Mas, ora bolas, isso não conta.) Percebi que as minhas palavras podiam tê-la magoado ou ferido de alguma forma, então resolvi pedir desculpas da mesma maneira que ela me agradeceu pelas cinco pratas; dando-lhe um abraço. "Não vai me dizer o seu nome, mocinha?" perguntei, a fim de não provocar mais reações infantis da parte dela. "Joana.", respondeu, tirando do bolso uma fotografia e algumas moedas. No entanto, em nenhum momento, cheguei a desconfiar de que aquilo era praticamente tudo o que ela tinha.

A minha pouca relutância decrépita não foi páreo para a insistência viril de Joana, de modo que ela me acompanhou até a Avenida Rio Branco. Convidei-a para um café na Livraria da Travessa, mas aí foi a vez dela relutar (considerando-se inferior ao ambiente elitista da livraria) e a minha de insistir e pelo menos nessa eu levei. Pedi meu capuccino com pães de queijo, como de costume, e ela preferiu não tomar nada, alegando repúdio a qualquer tipo de café e perda total de apetite depois do qüiproquó na lanchonete. Contou-me detalhadamente os problemas familiares, o quanto batalhou para comprar uma passagem de ônibus para o Rio de Janeiro, seu sonho de ser atriz, mas falou muito pouco sobre sua infância. Questionei sobre onde ela dormiria naquela noite e ela disse que não tinha para onde ir; além disso, suas coisas haviam sido roubadas por um pivete no Largo da Carioca. Depois desse dia, você pode até imaginar como essa estória se sucedeu. Agnes adorou Joana, que adorou ainda mais nossos cachorros: Mantorras e Giulio. Então, ela entrou em nossas vidas para não sair mais. Para não mais sair?

Quando fui encarregado pela produtora de trabalhar com Roberto Villas-Boas, a primeira coisa que pensei foi "Tenho de encaixar Joana no elenco". E trabalhei incessantemente para isso. E consegui, não com relativa facilidade, mas, como disse o Lauro numa das nossas conversas sobre as eleições para governador, não é uma atitude muito inteligente subestimar a retórica do velho Rossi. Quanto ao resto, eu tenho a mais absoluta segurança em afirmar que todos os méritos devem ser atribuídos à ela. Uma atriz de mão cheia, boa até dizer chega, dessas que faz com que nossas bocas abram gradativamente produzindo uma basbaquice em série.

Não fiz faculdade de cinema nem trabalhei na televisão. Durante toda a minha vida ativa, como um trabalhador ativo, eu diria, e não encostado aqui nesse empreguinho borocoxô, eu tentei ser um ator, um bom ator, acima da média. Construí uma espécie de carreira sem reconhecimento no teatro e me orgulho de nunca ter saído dele. Quer dizer, trabalho com cinema, mas trabalhar nos bastidores é radicalmente diferente de ser um ator de cinema. Nunca protagonizei nenhuma peça de sucesso, mas já fiz algumas participações em algumas dessas peças relevantes. A verdade é que eu era um ator bom pra dedel e nenhum bostinha teve a inteligência suficiente para fazer com que eu utilizasse os cem por cento do meu potencial. Depois de uma vida praticamente inteira no anonimato dos palcos, fui convidado por Nílton Petraglia, diretor cujo qual eu já havia trabalhado na peça "Coração de Papel", para assistência-lo na direção de "A Mordaça". Numa das apresentações, conheci Sérgio Dantas, ex-contratado da produtora que hoje trabalho, que brincou com os meus anseios prometendo-me um papel num filme chamado "O Homem Que Morreu Na Praia" (até hoje eu penso se ele não estava a fazer um tipo de piada interna me convidando para um filme com tal título). Só que o patrocinador do filme desistiu da idéia (não tiro a sua razão) e eu fiquei na merda; sem emprego no teatro e sem emprego no cinema. Mesmo sem esperar nenhum tipo de consolo por parte da produtora, eles me convidaram para trabalhar como assistente de direção e, desde então, este é o meu terceiro trabalho (antes desse, trabalhei com Maurício Linhares em "Pai dos Pobres: A vida e morte de Getúlio Vargas" e Paulo Maranhão em "Colecionando Saberes"). O intervalo de tempo entre o meu segundo trabalho e este foi, digamos, extenso e cansativo, a ponto de eu pensar várias vezes em pedir demissão (sem antes, claro, colocar fogo em alguma lixeira da produtora e esbaforir milhares de verdades na cara de pessoas como o Sr. Dantas, o Sr. Villas-Boas etc.) e só não fazer isso por duas razões: o apoio de minha querida Agnes, que me aconselhava a esperar e acreditar no meu potencial, velho, mas meu, e por nesse tempo ter conhecido Joana. (A ida dela lá pra casa me encheu de vontades; trabalhar, escrever, fazer palavras cruzadas, passear pelas ruas do centro, comer pães de queijo, enfim, trouxe um pouco mais de vivacidade para esse velho aqui que vos fala. Até Lauro e Barthes, colegas de praça, confidentes de carteado e velhotes picuinhas repararam nos benefícios trazidos por ela.)

Nesse período de inatividade, começaram a surgir as piadinhas maldosas quanto à minha verdadeira função. Freqüentava diariamente o prédio da produtora, em Botafogo, buscando informações sobre novos filmes e novas oportunidades de trabalho. Por todos os corredores em que passei ouvi algo do tipo "Porra, esse velho aqui de novo?" ou "Será que o vovô não se manca de que já passou do ponto?" e isso não me deixava puto, nem cabisbaixo (sempre tive auto-estima suficiente para ignorar esse tipo de coisa), mas cético em relação ao meu futuro ali. Posso listar as melhores piadinhas que ouvi nesse tempo: 1) "Hei, velho, isso aqui não é a fila do banco! Idosos aqui não têm preferência!", pelo cara da xérox; 2) "Ah, velhote, fiquei sabendo que lá em Irajá tem um ótimo baile da terceira idade. Está cheio de derrotados como você", pelo cara do almoxarifado; 3) "Veio ver se tem trabalho pra você? Que tal começar varrendo o chão?", pela secretária do dono da produtora; 4) "Aí, velho, estão abrindo vagas para porteiro", do estagiário que come a secretária do dono da produtora. Nunca sequer disse um vai plantar batata para essas pessoas. Uma prova bacana de autocontrole da minha parte. Talvez por isso tenham me encaixado nesse "A Invasão Branca". O Villas-Boas era o fim da picada: impulsivo, de quase nenhuma inteligência e total falta de pragmatismo. Além disso, a maioria dos assistentes era na verdade as assistentes (noventa por cento de brotos formosos recém-formados em cinema e dez por cento de atrizes figurantes formosas ou paquerinhas que ele já havia traçado em algum momento).

Mas depois de introduzir Joana na produtora as coisas começaram a mudar. Ganhei uma espécie de respeito entre as próprias pessoas que no primeiro momento não hesitaram na tentativa de me humilhar e que depois também não hesitaram em me bajular. (É a tal história de virar um velhinho bacana; foi aí que a minha vontade de chutar o balde foi maior do que tudo nesse mundo. Eu preferiria muito mais agüentar novamente todas as caraminholas, humilhações e piadas do que receber os vários tapinhas nas costas que levei daquela gentalha constipada dos infernos.) Joana conquistou rapidamente a todos; desde o meninote responsável por entregar os memorandos até os diretores de alto escalão. No teste dela para participar do filme, que eu consegui junto ao Lúcio Santana Filho - filho do magnata dono da produtora, mas que não deixa de ser supimpa por isso -, ela simplesmente arrebentou a boca do balão. Ao invés de uma participação de apenas cinco cenas, como estava previsto, acabou ganhando o papel da índia Ipanema - aquela que é estuprada na cena quarenta e cinco -, antes dado à uma das atrizes queridinhas da produtora, Elis Pacheco. Assim, Joana passou a freqüentar diariamente os sets de filmagem e a participar ativamente do ritmo de trabalho. (E não se tratava de uma simples atriz; ela dava conselhos, fazia improvisações que deixavam a todos impressionados. Todos os profissionais envolvidos no processo de filmagem paravam, literalmente, para ver Joana em ação.) Como trabalhávamos juntos, eu não precisava me preocupar com a sua rotina, pois estava junto dela em noventa por cento do tempo. Mas na quarta ou quinta semana de filmagem, ela deixou de voltar para casa comigo, no final do expediente, sempre com a desculpa de ensaiar as cenas um pouco mais. Mas os horários na qual ela chegava em casa, depois dos tais ensaios, denunciavam que Joana estava se descobrindo e se adaptando verdadeiramente àquilo que nós costumamos chamar de cidade grande. Num desses dias, fiquei à sua espera da garagem, com um olho no peixe e outro no gato, e acabei confirmando justamente o que eu temia: Joana chegara num belo e polido carro vermelho e antes de saltar, trocando as pernas e com os olhares desencontrados de quem havia se manguaçado nas biritas e afins, dera um apimentado beijo no... Filho da Puta do Villas-Boas! Minha vontade foi de ir lá e esbofetear a fuça do desgraçado, esfregar sua cara no asfalto e somente depois de me certificar de que todos os seus dentes foram arrancados, jogá-lo num rio com piranhas em jejum. Mas nada disso adiantaria; a merda já havia sido feita. E descontar em Joana também não teria o menor resultado. Então, o que fiz foi calar-me perante o problema e, através de conselhos à Joana e insultos aos Villas-Boas (não é uma atitude muito inteligente subestimar a retórica do velho Rossi), tentar contornar a situação.

Só que a retórica do velho Rossi... Bem, ela não foi e nunca seria páreo para os novos horizontes de uma jovem sedenta por acontecimentos e novidades em sua vida. Por isso, não condeno Joana. Não guardo mágoas, nem fiz questão de anotar coisas para dizer a ela. Exatamente um mês depois de ter visto o talvez quarto ou quinto ato de uma tragédia anunciada, quando começávamos a planejar (planos, sempre, planos) o set de filmagem para a cena quarenta e cinco, recebi a notícia de que Villas-Boas largara o projeto de "Invasão Branca" e levara Joana à São Paulo para assinar um contrato com a maior emissora de TV do país. "Pobre Joana; vai ter seu cérebro devorado por piranhas em jejum", pensei quando o Lúcio Santana Filho ligou para minha casa a fim de dar a notícia, mas hoje vejo que ela apenas optou pelo melhor para si. O que me deixa mais triste é, sem dúvidas, saber que Agnes sofre, pois adotou Joana como a filha que nunca tivemos, como a pirraça autêntica que nunca vimos, como o motivo de orgulho que os pais geralmente sentem quando vêem seus filhos vencerem na vida. Minha companheira querida, que eu amo incondicionalmente (embora nunca tenha dito isso à ela, pois eu ainda não aprendi a lidar com as pequenas situações da vida que exigem certas coisas a serem ditas), acabou entrando em estado de choque com a notícia e inspira cuidados, já que sofre de problemas cardíacos. É, da mais profunda sinceridade, o único parágrafo que eu mudaria nessa estória.

 

Passo toda a filmagem da cena quarenta e cinco pensando em Agnes e, secundariamente, em Joana e Roberto Villas-Boas. Para ser mais exato; estou preocupado com a saúde de Agnes, com o futuro que Joana vai ter na televisão e, como a minha caixa de pensamentos é muito grande, pois já guardou muitos e muitos planos, ainda sobra espaço para eu desejar a morte do Villas-Boas. Vejo a atuação de Elis Pacheco como quem vê um cerimonial de enterro; ela está rindo, estupidamente, como quem ganhou um concurso de miss ou coisa que o valha. Não passa a dramaticidade que a cena exige. Suas expressões corporais são limitadas, não há longevidade, não há a naturalidade de uma boa selvagem. Ah! Como é ruim essa Elis Pacheco. Toda a filmagem dura duas horas e meia que certamente vão ser as duas horas e meias mais lentas da minha existência. No final, não fico para o buffet, pois minha preocupação com Agnes é muito maior do que qualquer canapé de meia tigela, de forma que peço uma carona para um dos motoristas da produtora e ele muito gentilmente atende o meu pedido. Só que o caminho de Jacarepaguá para o Catete é longo e, com o agravante da minha aflição, ganha um sabor de eternidade. Tarcísio, o motorista, percebe a minha angústia e diz repetidas vezes coisas do tipo não fica assim e vai ficar tudo bem. O que ele não sabe é que esse tipo de coisa aumenta em cinqüenta por cento o nível de angústia de qualquer pessoa normal.

 

Estou na porta de casa quando o meu celular toca. É Bárbara. Minhas mãos tremem tanto que eu mal consigo segurar o robusto aparelho (é daqueles modelos antigos, que ficaram popularmente conhecidos como “tijolo”). Com a voz esganiçada, entre um soluço e outro, ela me dá a notícia de que Agnes foi levada para o Hospital de Cardiologia, em Laranjeiras, depois de enfartar na fila do supermercado. Mas, com mil demônios, por que diabos Agnes foi sair de casa? Fizemos compras na semana passada! Nunca tive nenhum tipo de crédulo nem nada; sempre fui um cara racional – não acredito em Deus, santinho ou porcaria que o valha – e ciente das limitações do ser humano. Mas Agnes acredita e vai à missa aos domingos, não é maledicente, cumpre todos os seus deveres enquanto pessoa temente a Deus, paga todos os impostos, não bebe e não fuma (é bom deixar claro que estou falando dela e não de mim), não joga veneno para os milhões de gatos abandonados pelo catete (por mais que eles sejam chatos e não te deixem dormir a noite), então, na impossibilidade dela mesmo fazer isso, eu posso ser o porta-voz; por que isso está acontecendo conosco? Deus, você não se propagou por tanto tempo um cara bondoso e justo, um velhinho bacana, se você me entende (e é por isso que eu não vou com a sua cara), então faça o favor de me responder; por que Agnes tem que passar por isso? Tudo bem, nós não tivemos um filho, eu aceitei, assim como aceitei Joana, fazendo dela minha filha, minha cria, minha motivação. E agora eu sou obrigado a ver a Vossa Majestade, do alto de sua onipotência, tirar-me as duas únicas coisas que amei em toda a minha existência? Isso é justiça, seu borra-botas de uma figa? Ou você me devolve Agnes ou você vai arranjar problemas!

O corredor do hospital tem o clima típico de corredores de hospital: toda aquela gentalha preocupada, levantando e sentando em sincronia, colocando as mãos na cabeça, esfregando o rosto, dando soquinhos na parede; revistas antigas na sala de espera (eles chegaram ao ponto de colocar uma revista Caras de cinco anos atrás), uma máquina-cafeteira (quer ganhar dinheiro em cima do nervosismo e da angústia das pessoas? Coloque uma máquina-cafeteira numa sala de espera de um hospital), mulheres e homens com caras fechadas, como se a obrigação de parecer sério fosse mais importante do que a própria medicina. Já havia até me esquecido de como é odioso entrar num hospital. Vou para o lado de fora, fumar um cigarro, acompanhado do sobrinho de Agnes, Henrique, e a mulher, Letícia (ao menos, eles tiveram o bom senso de não trazer aquele fedelho boçal que eles chamam de filho). “A tia Agnes vai ficar bem, Antônio, eu tenho certeza disso”, diz ele, dando tapinhas nas minhas costas. Será essa a minha sina? Levar tapinhas nas costas de todos os imbecis que eu conheço? Resmungo alguma coisa e ele não fica satisfeito com a lengalenga inicial. “Ela é uma mulher de muita fibra. Sempre foi. Vai sair bem dessa, não vai, Letícia?”, pergunta à esposa, revelando que o seu otimismo babaca tem uma cúmplice; “Seu Antônio, está todo mundo rezando por ela. Dona Agnes é uma mulher corajosa e vai lutar até o fim para superar esse problema. Ela é uma vitoriosa”, diz com um meio sorriso, na tentativa de parecer simpática, mas o máximo que conseguiu foi parecer uma débil mental. O que eles acham que eu sou? Um velho inerte e burro que vai dar crédito às palavras de apoio que de nada vão servir? Daqui a pouco vão chamar um padre ou um pastor aqui para falar um sem número de asneiras (valha-me cristo!). Volto para a sala de espera, mas prefiro ficar longe deles (além de Henrique e Letícia, a facécia ainda conta com a presença de Bárbara, Lélio e Lourdes, esposa de Barthes, meu colega de praça) e então caminho até o setor de atendimento infantil do hospital, onde alguns bebês que muito provavelmente já nasceram com problemas cardíacos estão internados e reparo no sofrimento de duas mães que olham, tristemente, pelo vidro. Eu sei muito bem onde estou – no Hospital de Cardiologia – mas aquela imagem faz com que eu me sinta num momento inédito em minha vida, que por tantas noites desejei; estar ali, olhando aqueles bebês inocentemente encaixados em camas que lembram e muito incubadoras, através de um vidro, me transporta ao surreal e produz um efeito rejuvenescedor, me coloca na posição do pai embasbacado que olha e admira o seu filho recém-nascido, do homem que mesmo separado por um vidro está protegendo a sua cria. Meu devaneio transubstancial é interrompido pela mão de Lourdes sobre o meu ombro direito, que me traz de volta à realidade nua e crua, e pela sua fala pausada de apenas três palavras, que me faz ir a nocaute. Ela se foi.

 

Por um momento, vi e gostei de ter essa casa cheia. Não em termos quantitativos, claro, pois nela estavam apenas Agnes, Joana e eu; elas me completavam, preenchiam todo o espaço disponível no meu coração e, assim, a casa parecia estar sempre cheia, não de gente, claro, mas de felicidade. Embora ainda tenha as minhas reclamações a fazer quanto ao tempo de duração dessa felicidade, não vejo mais a vontade de seguir em frente, de colecionar jornais, de fazer palavras cruzadas, de reclamar da quantidade de absurda de plantas e flores dessa casa. Sinto me cansado, vazio e sem perspectivas. E como dizia o sempre sensato Lauro: “Quando um velho não tem mais perspectivas, é hora de guardar as meias”. Tiro todas as coisas de Agnes do nosso quarto e, pacientemente, guardo tudo em várias sacolas. Vou dar tudo isso para Bárbara. Quero ficar apenas com as plantas e flores e com o aroma sereno que elas emanam. Não existe nenhuma outra coisa que lembre tanto Agnes como o aroma de suas plantas e flores. Ligo para Henrique e peço que ele venha buscar as sacolas com as coisas de Agnes. Depois ligo para Lauro, mas ele não está em casa. Barthes deve ter ido almoçar na casa da sogra. Deitar na rede e fazer palavras cruzadas? Não.

Passo pela Praça do Museu da República e ainda consigo rir dos velhinhos bacanas que fazem ioga. Mas esses risos são desmanchados quando lembro que fazer ioga na Praça do Museu da República era um dos planos de Agnes para cuidar de sua saúde. Passo pelo cinema da mesma praça, o mais simpático que já fui, e lembro dos vários filmes que assistimos ali. Ando pelas ruas da Lapa e não consigo parar de pensar em Agnes. Vêm-me à cabeça todos os finais de semana em que tomamos nossas cervejinhas e comemos nossos aperitivos. “Ora bolas, toma jeito, seu bostinha sentimentalista!”, digo para mim mesmo, na tentativa de afastar todas aquelas lembranças. Inútil. Pego um ônibus e... Nada feito. É só ver algum velhote passando o RioCard que lembro de Agnes e o seu ódio pelos velhotes com RioCard (ela fazia questão de pagar passagem e declarava repúdio a qualquer tipo de gratuidade). As ruas do centro, graças a qualquer coisa que exista, são bem menos inspiradoras e nostálgicas. Mas caminhar pela Avenida Rio Branco é lembrar de Agnes e as visitas forçadas ao Museu Nacional de Belas-Artes. (Sempre odiei ir a museus, pois além de chato e monótono, você encontra um sem número de imbecis com aquele ar intelectualóide que me faz querer vomitar.)

Entro na Livraria da Travessa e, antes de subir as escadas em direção ao Café, resolvo procurar livros sobre botânica e tal. Alguns deles também lembram Agnes, quando aos cinqüenta e sete anos, resolveu fazer um Curso de Botânica. Só interrompo minha procura ao ver uma jovem com um belo vestido e um chapéu daqueles que as mulheres chiques usavam no tempo da onça esbarrando numa pilha de livros situada logo na entrada da livraria. Ela, potencialmente constrangida, pede desculpas ao rapazote responsável por atender aos clientes e sai rapidamente, limpando os olhos com um lenço. Volto à minha procura pelos livros que Agnes lia quando fazia a merda do Curso de Botânica. Não acho nenhum. Aliás, não sou muito fã de leitura (há algum tempo atrás quase fui linchado em praça pública por dizer que ler dá câncer). Acho, de coração, que todas as pessoas deveriam fazer palavras cruzadas e parar de perder tempo lendo romances com o mesmo final (sem falar nos livros de auto-ajuda, que na minha opinião, são os piores). Folheio o último livro do crítico de cinema mais babaca que existe, Walter Roman, e fico feliz por saber que Joana aceitou o convite de Carlos Miccoli para protagonizar o seu novo filme. Mas me deixa realmente irritado quando leio um trecho do parágrafo seguinte: “... Joana Camargo não tem nada a oferecer ao cinema senão um belo par de pernas...”. E ele, o que tem a oferecer? Uma visão retrograda e machista sobre o que é ou o que não é válido para cinema brasileiro? Ah, vá pentear macaco, Sr. Walter Roman. É desse tipo de pessoa que o país vai ter que se ver livre se um dia quiser ocupar uma posição decente no índice de desenvolvimento humano.

Só que ler sobre Joana me faz lembrar do seu jeito impulsivo e estabanado, lembrando, quase que automaticamente, da jovem que derrubou a pilha de livros minutos antes. Por Cristo, era Joana! Cheguei a vê-la descendo as escadas, mas, até onde eu me lembro, ela detestava qualquer coisa que tivesse cafeína (exceto refrigerantes, óbvio). Pego um dos livros de botânica e desembolso trinta e cinco pratas por ele. E lembrar que Agnes pagou vinte e cinco pelo mesmo livro, só que num sebo. Subo as escadas em direção ao Café da livraria e, sem refletir muito sobre a coisa, sento na primeira mesa e peço pães de queijo, capuccino e... Um maço de Carlton. Olho para o livro de botânica e penso em Agnes e sua doçura. Lembro de Joana saindo da livraria enxugando lágrimas e lembro de sua vitalidade contagiante. O que fiz de tão grave para perder tudo isto? Ao trazer o meu pedido, a moçoila do Café me entrega um envelope, dizendo “Uma moça que esteve aqui ainda pouco pediu para que eu entregasse ao senhor...”. Abro o envelope e dele cai uma fotografia e algumas moedas, cinco pratas e um bilhete... “O senhor me deu uma vida e eu a joguei fora. As escolhas erradas custam mais do que cinco pratas... Espero que um dia eu seja tão grandiosa quanto o senhor. Com amor, Joana”.

 

Abro o maço de Carlton, acendo um cigarro e peço um refrigerante. 

FIM

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