|
Nessa
vida tudo que fiz foi planejar. Tudo que
consegui... Planos. Todos eles guardados num
baú que escondi na garagem da minha razoável
casa no bairro do Catete. Razoável mesmo,
pois lembro que num destes planos de que
falei constava uma casa grande, de dois
andares – não gosto da casa cheia, de
forma que a maioria dos quartos ficaria ou
vazio mesmo ou seria usado para guardar os
meus objetos – e com uma varanda que eu
pudesse colocar uma rede e passar boa parte
do tempo ali, fazendo palavras cruzadas ou
lendo jornal. (Sempre tive um espírito
colecionador e os jornais foram a última
coisa que resolvi acumular. Hoje,
provavelmente, na casa dos meus sonhos, eles
estariam guardados em fileiras num dos
quartos vazios do segundo andar, divididos
por nome e data, e não empilhados de forma
desorganizada na garagem.) O máximo que
consegui foram dois quartos, duas salas, uma
cozinha, dois banheiros (um no meu quarto e
outro no corredor de acesso ao quarto que
foi de Joana) e uma varanda pequena, porém
simpática, decorada com o bom gosto da
minha querida Agnes, cuja função
atualmente é cuidar de sua floricultura, no
Flamengo. Ela e a irmã, Bárbara, gostam
muito daquilo lá. Eu costumo dizer que a ABFlores
é o filho que Agnes não teve e a compensação
pelo marido chato que a Bárbara arrumou. (E
isso não é nenhum exagero meu; Lélio,
marido de Bárbara, não passa de um
borra-botas convencido, como se ser um
ex-militar lhe conferisse uma patente a mais
como pessoa.) Não tenho problemas em
admitir que a floricultura de Agnes é
responsável pelo nosso sustento de forma,
digamos, líquida, mas isso não é uma
verdade absoluta e inquestionável.
Chego
ao set de filmagem de “Invasão
Branca”, escrito por Roberto
Villas-Boas, o cara mais casca-grossa e mais
filho da puta que conheci até hoje, e agora
dirigido pelo jovem Aristeu Santos, um dos
destaques no Festival de Cinema do Rio de
Janeiro, pois Villas-Boas abandonou o barco
assim que apareceu uma oportunidade mais
rentável (eu poderia bancar o boçal e
dizer "às minhas custas",
mas ainda tenho um pingo de bom senso) no
ramo do empresariado ("Villas-Boas é
um vendido! Villas-Boas não passa de
um filho da puta vendido!" se
você preferir entender na própria
linguagem do pessoal que trabalha com
cinema). Vou direto checar se está tudo nos
trinques para a gravação da cena quarenta
e cinco, uma em que um português safado
estupra uma índia indefesa. O filme, aliás,
é sobre o período em que os portugueses
safados escravizaram os índios nem tão
indefesos assim na extração do Pau-Brasil
(como se trocar bugigangas e quinquilharias
pela mão-de-obra indígena não fosse
escravização, ha ha ha). Os atores são
ruins (quase todos eles trabalham na televisão
e me parece que a televisão come o cérebro
das pessoas), a produção é ruim, o
roteiro é ruim, os câmeras são ruins, a
fotografia é ruim, a trilha-sonora é ruim;
esse vai ser o tipo de filme que os críticos
vão saborear acompanhados de um bom vinho
branco. Mas uma coisa nele já me faz ter
certo orgulho de dizer aos meus colegas de
praça que trabalho na construção do próprio:
Joana Camargo. Jovem que abandonou tudo que
tinha no Rio Grande do Sul (uma casa pobre
em Santa Maria
, cinco irmãos, uma mãe com tendências
suicidas e um padrasto alcoólatra) em busca
do sonho de tornar-se uma grande atriz. Como
encontrei Joana? Não gosto muito de contar
essa estória, pois me faz parecer um
sentimentalista paquidérmico – ou uma espécie
de velhinho bacana, o que é pior
–, desses que você vai encontrar correndo
na Praia de Botafogo ou fazendo ioga na Praça
do Museu da República.
Estava
eu dia desses passeando pelas ruas do centro
da cidade (para ser mais exato, na esquina
do Largo de São Francisco com a Rua do
Ouvidor), quando presenciei Joana em maus
bocados por não ter dinheiro suficiente
para pagar um lanche que comera numa reles
lanchonete. Não aparentava ser uma miserável
(tênis, calça jeans e uma camisa do
Internacional), mas seus olhos lacrimejantes
expulsavam o medo - como os navegadores
desesperados que usam baldes para tirar a água
de dentro da embarcação em meio à
tempestade - e a intimidação perante a
enormidade social da cidade e a enormidade
corporal do dono da lanchonete. Sem me
dispor a conversa fiada, aproximei-me do
rapazote que havia atendido Joana e
interpelei quanto ao valor de sua dívida.
"Cinco pratas.", disse ele. Não
foram as cinco pratas mais bem gastas da
minha vida, mas fiquei feliz em ajudar àquela
menina, que logo depois veio agradecer
dando-me um abraço repentino. "Sem
chorumelas, garota." disse, na
frustrada tentativa de afastá-la de mim.
"Obrigado, senhor, muito obrigado"
dizia ela, repetidas vezes, coisa que me fez
enxergar o nível de sua estrutura emocional
naquele momento. "Já paguei o seu
lanche, garota. Agora tome o seu rumo."
bradei, distanciando-me, à passos largos.
Mas para Joana, com a vitalidade de sua
juventude, foi mamão com açúcar me alcançar.
"O que você quer, garota?"
perguntei, não olhando diretamente para
ela. "Posso saber, ao menos, o nome do
senhor que me ajudou?" perguntou, num
esforço quase geométrico para olhar nos
meus olhos. "Antônio. Antônio Rossi.
Satisfeita? Agora, menina, deixe-me
ir!" disse eu, firmemente, agora
olhando diretamente em seus olhos. "Não
vai querer saber qual é o nome da menina
que o senhor ajudou?" perguntou ela,
colocando-se à minha frente para que eu não
pudesse seguir a diante. "Mas será o
Benedito?! O que você quer, garota? Quer
dinheiro para o lanche da noite? Tudo bem,
eu te dou, mas faça o favor de me deixar em
paz!" disse, quase aos berros, enquanto
ela fechava o rosto e me dava as costas,
como uma criança no seu autêntico momento
de pirraça. Fazia um bom tempo que eu não
via esse tipo de coisa e já tinha até me
esquecido de como era. (A última vez, para
ser fiel aos fatos, foi quando Henrique,
sobrinho de Agnes, levou o Patrick, aquela
criança insuportável e destruidora, lá
em casa. E
isso tinha sido na semana anterior. Mas, ora
bolas, isso não conta.) Percebi que as
minhas palavras podiam tê-la magoado ou
ferido de alguma forma, então resolvi pedir
desculpas da mesma maneira que ela me
agradeceu pelas cinco pratas; dando-lhe um
abraço. "Não vai me dizer o seu nome,
mocinha?" perguntei, a fim de não
provocar mais reações infantis da parte
dela. "Joana.", respondeu, tirando
do bolso uma fotografia e algumas moedas. No
entanto, em nenhum momento, cheguei a
desconfiar de que aquilo era praticamente
tudo o que ela tinha.
A
minha pouca relutância decrépita não foi
páreo para a insistência viril de Joana,
de modo que ela me acompanhou até a Avenida
Rio Branco. Convidei-a para um café na
Livraria da Travessa, mas aí foi a vez dela
relutar (considerando-se inferior ao
ambiente elitista da livraria) e a minha de
insistir e pelo menos nessa eu levei. Pedi
meu capuccino com pães de queijo, como de
costume, e ela preferiu não tomar nada,
alegando repúdio a qualquer tipo de café e
perda total de apetite depois do qüiproquó
na lanchonete. Contou-me detalhadamente os
problemas familiares, o quanto batalhou para
comprar uma passagem de ônibus para o Rio
de Janeiro, seu sonho de ser atriz, mas
falou muito pouco sobre sua infância.
Questionei sobre onde ela dormiria naquela
noite e ela disse que não tinha para onde
ir; além disso, suas coisas haviam sido
roubadas por um pivete no Largo da Carioca.
Depois desse dia, você pode até imaginar
como essa estória se sucedeu. Agnes adorou
Joana, que adorou ainda mais nossos
cachorros: Mantorras e Giulio. Então, ela
entrou em nossas vidas para não sair mais. Para
não mais sair?
Quando
fui encarregado pela produtora de trabalhar
com Roberto Villas-Boas, a primeira coisa
que pensei foi "Tenho de encaixar Joana
no elenco". E trabalhei incessantemente
para isso. E consegui, não com relativa
facilidade, mas, como disse o Lauro numa das
nossas conversas sobre as eleições para
governador, não é uma atitude muito
inteligente subestimar a retórica do velho
Rossi. Quanto ao resto, eu tenho a mais
absoluta segurança em afirmar que todos os
méritos devem ser atribuídos à ela. Uma
atriz de mão cheia, boa até dizer chega,
dessas que faz com que nossas bocas abram
gradativamente produzindo uma basbaquice em
série.
Não
fiz faculdade de cinema nem trabalhei na
televisão. Durante toda a minha vida ativa,
como um trabalhador ativo, eu diria, e não
encostado aqui nesse empreguinho borocoxô,
eu tentei ser um ator, um bom ator, acima da
média. Construí uma espécie de carreira
sem reconhecimento no teatro e me orgulho de
nunca ter saído dele. Quer dizer, trabalho
com cinema, mas trabalhar nos bastidores é
radicalmente diferente de ser um ator de
cinema. Nunca protagonizei nenhuma peça de
sucesso, mas já fiz algumas participações
em algumas dessas peças relevantes.
A verdade é que eu era um ator bom pra
dedel e nenhum bostinha teve a inteligência
suficiente para fazer com que eu utilizasse
os cem por cento do meu potencial. Depois de
uma vida praticamente inteira no anonimato
dos palcos, fui convidado por Nílton
Petraglia, diretor cujo qual eu já havia
trabalhado na peça "Coração de
Papel", para assistência-lo na
direção de "A Mordaça".
Numa das apresentações, conheci Sérgio
Dantas, ex-contratado da produtora que hoje
trabalho, que brincou com os meus anseios
prometendo-me um papel num filme chamado "O
Homem Que Morreu Na Praia" (até
hoje eu penso se ele não estava a fazer um
tipo de piada interna me convidando para um
filme com tal título). Só que o
patrocinador do filme desistiu da idéia (não
tiro a sua razão) e eu fiquei na merda; sem
emprego no teatro e sem emprego no cinema.
Mesmo sem esperar nenhum tipo de consolo por
parte da produtora, eles me convidaram para
trabalhar como assistente de direção e,
desde então, este é o meu terceiro
trabalho (antes desse, trabalhei com Maurício
Linhares em "Pai dos Pobres: A vida
e morte de Getúlio Vargas" e Paulo
Maranhão em "Colecionando
Saberes"). O intervalo de tempo
entre o meu segundo trabalho e este foi,
digamos, extenso e cansativo, a ponto de eu
pensar várias vezes em pedir demissão (sem
antes, claro, colocar fogo em alguma lixeira
da produtora e esbaforir milhares de
verdades na cara de pessoas como o Sr.
Dantas, o Sr. Villas-Boas etc.) e só não
fazer isso por duas razões: o apoio de
minha querida Agnes, que me aconselhava a
esperar e acreditar no meu potencial, velho,
mas meu, e por nesse tempo ter conhecido
Joana. (A ida dela lá pra casa me encheu de
vontades; trabalhar, escrever, fazer
palavras cruzadas, passear pelas ruas do
centro, comer pães de queijo, enfim, trouxe
um pouco mais de vivacidade para esse velho
aqui que vos fala. Até Lauro e Barthes,
colegas de praça, confidentes de carteado e
velhotes picuinhas repararam nos benefícios
trazidos por ela.)
Nesse
período de inatividade, começaram a surgir
as piadinhas maldosas quanto à minha
verdadeira função. Freqüentava
diariamente o prédio da produtora, em
Botafogo, buscando informações sobre novos
filmes e novas oportunidades de trabalho.
Por todos os corredores em que passei ouvi
algo do tipo "Porra, esse velho aqui de
novo?" ou "Será que o vovô não
se manca de que já passou do ponto?" e
isso não me deixava puto, nem cabisbaixo
(sempre tive auto-estima suficiente para
ignorar esse tipo de coisa), mas cético em
relação ao meu futuro ali. Posso
listar as melhores piadinhas que ouvi nesse
tempo: 1) "Hei, velho, isso aqui não
é a fila do banco! Idosos aqui não têm
preferência!", pelo cara da xérox; 2)
"Ah, velhote, fiquei sabendo que lá em
Irajá tem um ótimo baile da terceira
idade. Está cheio de derrotados como você",
pelo cara do almoxarifado; 3) "Veio ver
se tem trabalho pra você? Que tal começar
varrendo o chão?", pela secretária
do dono da produtora; 4) "Aí, velho,
estão abrindo vagas para porteiro", do
estagiário que come a secretária do dono
da produtora. Nunca sequer disse um vai
plantar batata para essas pessoas. Uma
prova bacana de autocontrole da minha parte.
Talvez por isso tenham me encaixado nesse "A
Invasão Branca". O Villas-Boas era
o fim da picada: impulsivo, de quase nenhuma
inteligência e total falta de pragmatismo.
Além disso, a maioria dos assistentes era
na verdade as assistentes (noventa
por cento de brotos formosos recém-formados
em cinema e dez por cento de atrizes
figurantes formosas ou paquerinhas que ele já
havia traçado em algum momento).
Mas
depois de introduzir Joana na produtora as
coisas começaram a mudar. Ganhei uma espécie
de respeito entre as próprias
pessoas que no primeiro momento não
hesitaram na tentativa de me humilhar e que
depois também não hesitaram em me bajular.
(É a tal história de virar um velhinho
bacana; foi aí que a minha vontade de
chutar o balde foi maior do que tudo nesse
mundo. Eu preferiria muito mais agüentar
novamente todas as caraminholas, humilhações
e piadas do que receber os vários tapinhas
nas costas que levei daquela gentalha
constipada dos infernos.) Joana conquistou
rapidamente a todos; desde o meninote
responsável por entregar os memorandos até
os diretores de alto escalão. No teste dela
para participar do filme, que eu consegui
junto ao Lúcio Santana Filho - filho do
magnata dono da produtora, mas que não
deixa de ser supimpa por isso -, ela
simplesmente arrebentou a boca do balão. Ao
invés de uma participação de apenas cinco
cenas, como estava previsto, acabou ganhando
o papel da índia Ipanema - aquela que é
estuprada na cena quarenta e cinco -, antes
dado à uma das atrizes queridinhas da
produtora, Elis Pacheco. Assim, Joana passou
a freqüentar diariamente os sets de
filmagem e a participar ativamente do ritmo
de trabalho. (E não se tratava de uma
simples atriz; ela dava conselhos, fazia
improvisações que deixavam a todos
impressionados. Todos os profissionais
envolvidos no processo de filmagem paravam,
literalmente, para ver Joana em ação.)
Como trabalhávamos juntos, eu não
precisava me preocupar com a sua rotina,
pois estava junto dela em noventa por cento
do tempo. Mas na quarta ou quinta semana de
filmagem, ela deixou de voltar para casa
comigo, no final do expediente, sempre com a
desculpa de ensaiar as cenas um pouco
mais. Mas os horários na qual ela
chegava em casa, depois dos tais ensaios,
denunciavam que Joana estava se descobrindo
e se adaptando verdadeiramente àquilo que nós
costumamos chamar de cidade grande.
Num desses dias, fiquei à sua espera da
garagem, com um olho no peixe e outro no
gato, e acabei confirmando justamente o que
eu temia: Joana chegara num belo e polido
carro vermelho e antes de saltar, trocando
as pernas e com os olhares desencontrados de
quem havia se manguaçado nas biritas e
afins, dera um apimentado beijo no... Filho
da Puta do Villas-Boas! Minha vontade foi de
ir lá e esbofetear a fuça do desgraçado,
esfregar sua cara no asfalto e somente
depois de me certificar de que todos os seus
dentes foram arrancados, jogá-lo num rio
com piranhas
em jejum. Mas
nada disso adiantaria; a merda já havia
sido feita. E descontar em Joana também não
teria o menor resultado. Então, o que fiz
foi calar-me perante o problema e, através
de conselhos à Joana e insultos aos
Villas-Boas (não é uma atitude muito
inteligente subestimar a retórica do velho
Rossi), tentar contornar a situação.
Só
que a retórica do velho Rossi... Bem, ela não
foi e nunca seria páreo para os novos
horizontes de uma jovem sedenta por
acontecimentos e novidades em sua vida. Por
isso, não condeno Joana. Não guardo mágoas,
nem fiz questão de anotar coisas para dizer
a ela. Exatamente um mês depois de ter
visto o talvez quarto ou quinto ato de uma
tragédia anunciada, quando começávamos a
planejar (planos, sempre, planos) o set de
filmagem para a cena quarenta e cinco,
recebi a notícia de que Villas-Boas largara
o projeto de "Invasão Branca"
e levara Joana à São Paulo para assinar um
contrato com a maior emissora de TV do país.
"Pobre Joana; vai ter seu cérebro
devorado por piranhas em jejum", pensei
quando o Lúcio Santana Filho ligou para
minha casa a fim de dar a notícia, mas hoje
vejo que ela apenas optou pelo melhor para
si. O que me deixa mais triste é, sem dúvidas,
saber que Agnes sofre, pois adotou Joana
como a filha que nunca tivemos, como a pirraça
autêntica que nunca vimos, como o motivo de
orgulho que os pais geralmente sentem quando
vêem seus filhos vencerem na vida. Minha
companheira querida, que eu amo
incondicionalmente (embora nunca tenha dito
isso à ela, pois eu ainda não aprendi a
lidar com as pequenas situações da vida
que exigem certas coisas a serem ditas),
acabou entrando em estado de choque com a
notícia e inspira cuidados, já que sofre
de problemas cardíacos. É, da mais
profunda sinceridade, o único parágrafo
que eu mudaria nessa estória.
Passo
toda a filmagem da cena quarenta e cinco
pensando em Agnes e, secundariamente, em
Joana e Roberto Villas-Boas. Para ser mais
exato; estou preocupado com a saúde de
Agnes, com o futuro que Joana vai ter na
televisão e, como a minha caixa de
pensamentos é muito grande, pois já
guardou muitos e muitos planos, ainda sobra
espaço para eu desejar a morte do
Villas-Boas. Vejo a atuação de Elis
Pacheco como quem vê um cerimonial de
enterro; ela está rindo, estupidamente,
como quem ganhou um concurso de miss ou
coisa que o valha. Não passa a
dramaticidade que a cena exige. Suas expressões
corporais são limitadas, não há
longevidade, não há a naturalidade de uma
boa selvagem. Ah! Como é ruim essa Elis
Pacheco. Toda a filmagem dura duas horas e
meia que certamente vão ser as duas horas e
meias mais lentas da minha existência. No
final, não fico para o buffet, pois minha
preocupação com Agnes é muito maior do
que qualquer canapé de meia tigela, de
forma que peço uma carona para um dos
motoristas da produtora e ele muito
gentilmente atende o meu pedido. Só que o
caminho de Jacarepaguá para o Catete é
longo e, com o agravante da minha aflição,
ganha um sabor de eternidade. Tarcísio, o
motorista, percebe a minha angústia e diz
repetidas vezes coisas do tipo não fica
assim e vai ficar tudo bem. O que
ele não sabe é que esse tipo de coisa
aumenta em cinqüenta por cento o nível de
angústia de qualquer pessoa normal.
Estou
na porta de casa quando o meu celular toca.
É Bárbara. Minhas mãos tremem tanto que
eu mal consigo segurar o robusto aparelho (é
daqueles modelos antigos, que ficaram
popularmente conhecidos como “tijolo”).
Com a voz esganiçada, entre um soluço e
outro, ela me dá a notícia de que Agnes
foi levada para o Hospital de Cardiologia,
em Laranjeiras, depois de enfartar na fila
do supermercado. Mas, com mil demônios, por
que diabos Agnes foi sair de casa? Fizemos
compras na semana passada! Nunca tive nenhum
tipo de crédulo nem nada; sempre fui um
cara racional – não acredito em Deus,
santinho ou porcaria que o valha – e
ciente das limitações do ser humano. Mas
Agnes acredita e vai à missa aos domingos,
não é maledicente, cumpre todos os seus
deveres enquanto pessoa temente a Deus, paga
todos os impostos, não bebe e não fuma (é
bom deixar claro que estou falando dela e não
de mim), não joga veneno para os milhões
de gatos abandonados pelo catete (por mais
que eles sejam chatos e não te deixem
dormir a noite), então, na impossibilidade
dela mesmo fazer isso, eu posso ser o
porta-voz; por
que isso está acontecendo conosco?
Deus, você não se propagou por tanto tempo
um cara bondoso e justo, um velhinho
bacana, se você me entende (e é por
isso que eu não vou com a sua cara), então
faça o favor de me responder; por que Agnes
tem que passar por isso? Tudo bem, nós não
tivemos um filho, eu aceitei, assim como
aceitei Joana, fazendo dela minha filha,
minha cria, minha motivação. E agora eu
sou obrigado a ver a Vossa Majestade, do
alto de sua onipotência, tirar-me as duas
únicas coisas que amei em toda a minha
existência? Isso é justiça, seu
borra-botas de uma figa? Ou você me devolve
Agnes ou você vai arranjar problemas!
O
corredor do hospital tem o clima típico de
corredores de hospital: toda aquela gentalha
preocupada, levantando e sentando em
sincronia, colocando as mãos na cabeça,
esfregando o rosto, dando soquinhos na
parede; revistas antigas na sala de espera
(eles chegaram ao ponto de colocar uma
revista Caras de cinco anos atrás), uma máquina-cafeteira (quer ganhar
dinheiro em cima do nervosismo e da angústia
das pessoas? Coloque uma máquina-cafeteira
numa sala de espera de um hospital),
mulheres e homens com caras fechadas, como
se a obrigação de parecer sério fosse
mais importante do que a própria medicina.
Já havia até me esquecido de como é
odioso entrar num hospital. Vou para o lado
de fora, fumar um cigarro, acompanhado do
sobrinho de Agnes, Henrique, e a mulher, Letícia
(ao menos, eles tiveram o bom senso de não
trazer aquele fedelho boçal que eles chamam
de filho). “A tia Agnes vai ficar bem, Antônio,
eu tenho certeza disso”, diz ele, dando
tapinhas nas minhas costas. Será essa a
minha sina? Levar tapinhas nas costas de
todos os imbecis que eu conheço? Resmungo
alguma coisa e ele não fica satisfeito com
a lengalenga inicial. “Ela é uma mulher
de muita fibra. Sempre foi. Vai sair bem
dessa, não vai, Letícia?”, pergunta à
esposa, revelando que o seu otimismo babaca
tem uma cúmplice; “Seu Antônio, está
todo mundo rezando por ela. Dona Agnes é
uma mulher corajosa e vai lutar até o fim
para superar esse problema. Ela é uma
vitoriosa”, diz com um meio sorriso, na
tentativa de parecer simpática, mas o máximo
que conseguiu foi parecer uma débil mental.
O que eles acham que eu sou? Um velho inerte
e burro que vai dar crédito às palavras
de apoio que de nada vão servir? Daqui
a pouco vão chamar um padre ou um pastor
aqui para falar um sem número de asneiras
(valha-me cristo!). Volto para a sala de
espera, mas prefiro ficar longe deles (além
de Henrique e Letícia, a facécia ainda
conta com a presença de Bárbara, Lélio e
Lourdes, esposa de Barthes, meu colega de
praça) e então caminho até o setor de
atendimento infantil do hospital, onde
alguns bebês que muito provavelmente já
nasceram com problemas cardíacos estão
internados e reparo no sofrimento de duas mães
que olham, tristemente, pelo vidro. Eu sei
muito bem onde estou – no Hospital de
Cardiologia – mas aquela imagem faz com
que eu me sinta num momento inédito em
minha vida, que por tantas noites desejei;
estar ali, olhando aqueles bebês
inocentemente encaixados em camas que
lembram e muito incubadoras, através de um
vidro, me transporta ao surreal e produz um
efeito rejuvenescedor, me coloca na posição
do pai embasbacado que olha e admira o seu
filho recém-nascido, do homem que mesmo
separado por um vidro está protegendo a sua
cria. Meu devaneio transubstancial é
interrompido pela mão de Lourdes sobre o
meu ombro direito, que me traz de volta à
realidade nua e crua, e pela sua fala
pausada de apenas três palavras, que me faz
ir a nocaute. Ela
se foi.
Por
um momento, vi e gostei de ter essa casa
cheia. Não em termos quantitativos, claro,
pois nela estavam apenas Agnes, Joana e eu;
elas me completavam, preenchiam todo o espaço
disponível no meu coração e, assim, a
casa parecia estar sempre cheia, não de
gente, claro, mas de felicidade. Embora
ainda tenha as minhas reclamações a fazer
quanto ao tempo de duração dessa
felicidade, não vejo mais a vontade de
seguir em frente, de colecionar jornais, de
fazer palavras cruzadas, de reclamar da
quantidade de absurda de plantas e flores
dessa casa. Sinto me cansado, vazio e sem
perspectivas. E como dizia o sempre sensato
Lauro: “Quando um velho não tem mais
perspectivas, é hora de guardar as
meias”. Tiro todas as coisas de Agnes do
nosso quarto e, pacientemente, guardo tudo
em várias sacolas. Vou dar tudo isso para Bárbara.
Quero ficar apenas com as plantas e flores e
com o aroma sereno que elas emanam. Não
existe nenhuma outra coisa que lembre tanto
Agnes como o aroma de suas plantas e flores.
Ligo para Henrique e peço que ele venha
buscar as sacolas com as coisas de Agnes.
Depois ligo para Lauro, mas ele não está
em casa. Barthes
deve ter ido almoçar na casa da sogra.
Deitar na rede e fazer palavras cruzadas? Não.
Passo
pela Praça do Museu da República e ainda
consigo rir dos velhinhos bacanas que fazem
ioga. Mas esses risos são desmanchados
quando lembro que fazer ioga na Praça do
Museu da República era um dos planos de
Agnes para cuidar de sua saúde. Passo pelo
cinema da mesma praça, o mais simpático
que já fui, e lembro dos vários filmes que
assistimos ali. Ando pelas ruas da Lapa e não
consigo parar de pensar
em Agnes. Vêm-me
à cabeça todos os finais de semana em que
tomamos nossas cervejinhas e comemos nossos
aperitivos. “Ora bolas, toma jeito, seu
bostinha sentimentalista!”, digo para mim
mesmo, na tentativa de afastar todas aquelas
lembranças. Inútil. Pego um ônibus e...
Nada feito. É só ver algum velhote
passando o RioCard que lembro de Agnes e o
seu ódio pelos velhotes com RioCard (ela
fazia questão de pagar passagem e declarava
repúdio a qualquer tipo de gratuidade). As
ruas do centro, graças a qualquer coisa que
exista, são bem menos inspiradoras e nostálgicas.
Mas caminhar pela Avenida Rio Branco é
lembrar de Agnes e as visitas forçadas ao
Museu Nacional de Belas-Artes. (Sempre odiei
ir a museus, pois além de chato e monótono,
você encontra um sem número de imbecis com
aquele ar intelectualóide
que me faz querer vomitar.)
Entro
na Livraria da Travessa e, antes de subir as
escadas em direção ao Café, resolvo
procurar livros sobre botânica e tal.
Alguns deles também lembram Agnes, quando
aos cinqüenta e sete anos, resolveu fazer
um Curso de Botânica. Só interrompo minha
procura ao ver uma jovem com um belo vestido
e um chapéu daqueles que as mulheres
chiques usavam no tempo da onça esbarrando
numa pilha de livros situada logo na entrada
da livraria. Ela, potencialmente
constrangida, pede desculpas ao rapazote
responsável por atender aos clientes e sai
rapidamente, limpando os olhos com um lenço.
Volto à minha procura pelos livros que
Agnes lia quando fazia a merda do Curso de
Botânica. Não acho nenhum. Aliás, não
sou muito fã de leitura (há algum tempo
atrás quase fui linchado em praça pública
por dizer que ler dá câncer). Acho, de
coração, que todas as pessoas deveriam
fazer palavras cruzadas e parar de perder
tempo lendo romances com o mesmo final (sem
falar nos livros de auto-ajuda, que na minha
opinião, são os piores). Folheio o último
livro do crítico de cinema mais babaca que
existe, Walter Roman, e fico feliz por saber
que Joana aceitou o convite de Carlos
Miccoli para protagonizar o seu novo filme.
Mas me deixa realmente irritado quando leio
um trecho do parágrafo seguinte: “...
Joana Camargo não tem nada a oferecer ao
cinema senão um belo par de pernas...”. E
ele, o que tem a oferecer? Uma visão
retrograda e machista sobre o que é ou o
que não é válido para cinema brasileiro?
Ah, vá pentear macaco, Sr. Walter Roman. É
desse tipo de pessoa que o país vai ter que
se ver livre se um dia quiser ocupar uma
posição decente no índice de
desenvolvimento humano.
Só
que ler sobre Joana me faz lembrar do seu
jeito impulsivo e estabanado, lembrando,
quase que automaticamente, da jovem que
derrubou a pilha de livros minutos antes.
Por Cristo, era Joana! Cheguei a vê-la
descendo as escadas, mas, até onde eu me
lembro, ela detestava qualquer coisa que
tivesse cafeína (exceto refrigerantes, óbvio).
Pego um dos livros de botânica e desembolso
trinta e cinco pratas por ele. E lembrar que
Agnes pagou vinte e cinco pelo mesmo livro,
só que num sebo. Subo as escadas em direção
ao Café da livraria e, sem refletir muito
sobre a coisa, sento na primeira mesa e peço
pães de queijo, capuccino e... Um maço de
Carlton. Olho para o livro de botânica e
penso em Agnes e sua doçura. Lembro de
Joana saindo da livraria enxugando lágrimas
e lembro de sua vitalidade contagiante. O
que fiz de tão grave para perder tudo isto?
Ao trazer o meu pedido, a moçoila do Café
me entrega um envelope, dizendo “Uma moça
que esteve aqui ainda pouco pediu para que
eu entregasse ao senhor...”. Abro o
envelope e dele cai uma fotografia e algumas
moedas, cinco pratas e um bilhete... “O
senhor me deu uma vida e eu a joguei fora.
As escolhas erradas custam mais do que cinco
pratas... Espero que um dia eu seja tão
grandiosa quanto o senhor. Com amor,
Joana”.
Abro
o maço de Carlton, acendo um cigarro e peço
um refrigerante.
|